Para Celebrar a Vida.
Os 9 anos da minha filha querida.
Enfim, a vida nos deu uma rasteira, que era de se esperar, mas não esperavamos.
Vivemos ainda acampadas aqui. Coisas improvisadas. E com os móveis velhos que ficaram para trás antes de nos mudarmos para o outro lá. Voltamos atrás, varremos a casa, tiramos a poeira e recomeçamos. Pois bem, Anna escolheu esse cenário para seu aniversário. Construí uma barraca enorme no meio da sala, para lembrar um acampamento de fato. Onde a turma, que só tem dez meninas, mesmo num colégio misto ( calhou), pudesse dormir, na famosa "festa do pijama" que agora está na maior moda.
Quando três dias antes da festa, a barraca chegou e foi instalada( uma cortina de "vual" )que ocupou a parede da janela e mais um espaço fazendo um grande círculo, roxo, verde limão e pink, estava mais para Halloween do que para a grande barraca de camping imaginada pela criativa aqui. Entrei em pânico. As meninas da escola são quase hostis entre elas, de tão mimadas, milionárias e fúteis. Não me olhem assim, não fui exatamente eu quem escolheu esta escola. São Paulo não oferece as opções maravilhosas que o Rio de Janeiro tem. Eu tambem confesso que não conheço direito esse universo. Enfim, equivocos a parte, eu queria que minha filha fosse amada nesse ambiente em que está no momento, cursando a terceira série. E não queria de jeito nenhum que achassem nossa casa estranha, feia, pequena, sem empregada, com cara de dia das bruxas ou o que quer que fosse de ruim. A barraca fez com que eu tivesse que juntar os moveis, tornando a sala minuscula. Socorro. Comecei a olhar para todos os lados com o olhar crítico dos outros. Vamos fazer a festa no outro apartamento filha? Afinal de contas ele também é nosso. Vamos? Ali tem mais espaço para fazer guerra de travesseiros, desfile, suas amigas vão ficar mais contentes. Mas ela estava maravilhada com a "barraca" e já tinha anunciado na escola onde a festa seria, fizemos convites com fotos de ursinhos, a "lembrancinha" que vocês veem aí, e ela não queria mudar o combinado, ainda mais na última hora. Fiz sua vontade, temerosa.
E foi a festa mais linda que minha filha já teve. Na verdade, foi a festa mais linda que eu já participei na minha vida. Chamei uma recreadora maravilhosa, Tia Malú. E antes dela chegar, imaginei eu mesma uma série de atividades. Como a "cerimonia do urso", onde cada menina antes de dormir iria pegar um desses ursinhos, escolher uma amiga e oferecer um deles. Assim haveria uma troca de presentes absolutamente iguais. Para que quando fossem dormir daqui para frente, se lembrassem desse dia, soubessem que tem 10 amigas que as amam e estão ai para apoia-las quando papais e mamães brigarem, quando estiverem chateadas ou com medo de alguma coisa, etc.(esse foi o meu discurso, num momento muito MÃE e muito "tia", espetacular) As crianças disseram lindas declarações umas para as outras. Teve todo o tempo, muita risada, muita palhaçada, muita brincadeira , muita amizade, muita felicidade, por que criança sabe o que é isso. O que a gente chama de "momentos", para elas é plenitude, mesmo que isso seja uma ilusão de criança. E assim, descobri que apesar das bizarrices no recreio, as coleguinhas tem jeito.
Não estão ainda tão amedrontadas, adulteradas, plastificadas, engessadas por nossa civilização, como seus pais. Ainda são seres primitivos como os das tribos estudadas por Levi Strauss. Ou seja, ainda preservam um pouco da nossa originalidade. E olhando para aquela turminha aconchegada na nossa casa improvisada, meu coração se encheu de esperança pelo futuro da humanidade sim. Nem que tenha sido tb uma ilusão de uma noite do pijama. Claro, o melhor de tudo isso é que minha filha amada, ficou muito feliz. Nem ela nem as meninas repararam em qualquer outra coisa que não fosse a alegria de se divertir. Se os pais torceram o nariz na hora de buscar? Problema deles. Devem ter aberto um sorriso quando ouviram o que as filhas tinham para contar. E ótimo se pararam de pensar em suas caraminholas para ouvir essas crianças um pouco que seja. Foi tudo um sucesso. Vou fazer para minha filha outras festas assim. Se continuar nessa escola( dizem que devo manter o mais possível uma "estabilidade" no momento). Estabilidade num lugar hostil, não faz o menor sentido. Mas agora parece menos hostil, então se continuar nessa escola as festas artezanais terão um carater meio educativo para aquela tribuzinha. Se mudar para uma escola com uma população menos Disney ou Aspen nos finais de semana e com pais mais intelecftuais, como me disseram que tem na Vila Madalena e na Vila Mariana, serão só festas animadas. E no mais, e isso é tudo, agradeço a Deus pela existencia da minha filha. Peço proteção para ela em todos os momentos de sua vida. Desejo que cresça saudável e com essa força de carater que ela já demonstra hoje. E desejo a todos, simplesmente todos os seres humanos, em dobro, tudo aquilo que desejarem para nós. A vida ensina. E nós queremos aprender sorrindo.







Na Lenda de Santa Isabel, dizem que transformaram camélias em pão. Flores da transformação.



