03 junho 2016

À BEIRA MAR. De Angelina Jolie com Brad Pitt. Tem gente que quando não tem mais o que fazer, faz um filme. Será que é bom?

      Ah, fazer um filme nas horas vagas, deve ser muito bom. Eu adoraria dispor de toda a parafernália para por em dia minha criatividade e expressar minhas neuroses sem medo de ser infeliz. Mas deve dar um trabalho... Mais fácil deitar num divã. E em seguida partir para melhores enredos.
 
   Vamos la: comprei o filme logo ali sem levar muita fé. Brad Pitt e Angelina Jolie,juntos. Mrs e Mr Smith outra vez? Socorro. Será que é de carros e armas? Não parece. Será que vão se matar? Pode ser. Dessa vez à beira mar.
                                              imagem de divulgação de A Beira Mar

As fotos são esquisitas. Capricha aí para vender melhor essa coisa toda... E fui assistir a tal película. Quem fez essa droga de roteiro arrastado, me pergunto logo de cara. Arrastado no começo? É,difícil de encarar. E vou assistindo: um escritor, Pitt ( franzindo a testa como Hemingway) e uma dona de casa,  ex-dançarina, Jolie, são o casal que vai passar temporada a beira da riviera francesa. Bonito cenário. E a música de entrada: Jane B. ,cantada por Jane Birkin com sua vozinha pequena e sensual. Ela que com Serge Gainsbourg, formava um casal sensação nos anos 60/70,  ( e são os pais de Charlotte Gainsbourg, uma atriz que eu adoro) mais ou menos a época em que se passa o filme , escrito e dirigido por Angelina.
 
   No inicio não dá muito para entender do que se trata: eles parecem um casal mais velho. Pitt envelheceu , de fato. E Jolie não está assim tão belle, magra daquele jeito. Braços e pernas muito finos, mostram que ali a vida não está fácil. Ela parece definhar ao sabor de suas  angústias. A personagem também é cheia de questões. Só pelo rosto meio cadavérico, que faz aquele bocão natural parecer um excesso de botox, me faz pensar em um casal de uns 60 anos, querendo parecer menos e se dando mal nessa intenção. Colocam um enchimento na cintura da atriz, para justamente dar a ideia de um corpo com mais idade. Fica realmente estranho e confuso o physique du rôle. Ok. Continuando: Pitt fala Francês no início da trama e tem um sotaque até que bem razoável, considerando que os americanos em geral, enrolam a língua em qualquer idioma. Com honrosas exceções.Você já ouviu Jodie Foster falando Francês? Simplesmente espetacular. É uma francesa. Mas Pitt vai indo.
                                           imagem de divulgação de A Beira Mar

   O resumo é o seguinte:ele, um escritor em crise,um homem em crise, um marido em crise, um ser humano em crise, está ali numa tentativa de aguentar aquele outro ser humano em crise, sua esposa. Ela encontra no quarto do hotel, um buraquinho  até que bem grande,  na parede( puxa que forçação é essa?) , e passa a "voyeurizar" e se excitar com  um casal em lua de mel no quarto ao lado.  Por incrível que pareça nessa hora o filme parece que vai ficar bom.  O ritmo começa a melhorar. E o casal ao lado é de excelentes atores:Melanie Laurent( quem não amou "O Concerto"?) e Melvil Poupaud( esse é ator, diretor e músico na vida...).  Brad num momento de solidão,  encontra o tal buraquinho/bucarão...Que coincidência...uh-la-la. E também começa a observar . O casal em crise passa a se alimentar do erotismo do casal sem crise. E num determinado momento a coisa vai se confundindo, se torturando um pouco mais....

   Entendemos na sequencia,  que o personagem de Angelina é estéril, e tentou engravidar algumas vezes... há três anos atrás. Ah,  eles não tem 60 anos então, são apenas dos anos 60 mesmo. Sem todos aqueles recursos e inseminações da atualidade. Ela sofre em seu tempo. Como se dar a luz fosse o único grande drama de uma mulher. Naqueles anos, certamente, mais. De toda forma é interessante a escolha do enredo, logo ela que foi  lindamente iluminada em compor uma família tão plural:crianças adotadas em países diferentes, e crianças da própria biologia nascidas em países diversos também. Parece fetiche não é? Vamos povoar o nosso mundo, com o mundo inteiro? Não deixa de ser uma boa proposta.

Pois é.  É isso. No final eles vão embora da praia, ao som de Jane Birkin,outra vez. Brad personagem  concluiu um livro sobre a vida deles. E um filme aparece na tela com o casal celebridade que já não é mais tão sensação assim:"A Beira Mar, "  dando uma pincelada diferente do enredo de suas vidas.  Já que a arte não precisa imitar a vida. Mas talvez se assemelhe em angústia, tédio, dificuldade de assujeitamento à própria humanidade, como aliás, a maioria de nós.  Tá com pena? Leva pra casa. Como diria,  quem? Chico Anísio? Prefiro comédia, concluo.

fotos encontradas no Google.

05 maio 2016

As vezes a gente escreve para ler no futuro. Esse post é um deles. E estou feliz de ler outra vez. Assim passo para vocês também.

Fragmentos de Uma Analise.com de Rubens Molina. Agora li o livro todo, tenho mais o que falar: Leia você também. Vem.

  Nada como a madrugada para  ler um livro inteiro. Quando é bom, não há esforço. É diversão garantida: dei gargalhadas com o bom humor do Mestre. Ali vai de tudo um muito: muita menção ao futuro, as novas tecnologias, aos homens construídos com cérebros mil vezes mais capazes do que os nossos. Também prefiro o futuro, desde sempre. Me fez lembrar minhas leituras de fim da infância: Adous Huxley e seus admiráveis mundos novos. Onde as crianças já não nasceriam mais de um ventre biológico, mas todos, bebês de laboratório. Valorizados de acordo com sua capacidade pensante: uma hierarquia intelectual, como castas. Parece a mesma coisa. E é quase. Os seres que Molina fala já não são feitos de carne e osso, mas tem consciência, humor e espiritualidade.. Admiro muitíssimo essa capacidade visionária de pessoas geniais. Huxley era meu Julio Verne. Que mais tarde virou Molina.
                                                                Rubens Jagger Molina:
                                                               Admiração e reconhecimento.


Foram aqueles 12, 13 anos de análise que já me sugeriram botar no currículo, como uma preciosidade. O Lattes não aceita essa parte tão importante do histórico de uma pessoa. Mas um dia isso há de mudar. De preferencia, logo. Quem não passou por uma análise na própria pele, vai fazer o que diante do sofrimento, da paixão de ser humano? Tudo parece meio engessado no mundo acadêmico. O reverso do que gira em torno de Rubens Molina, seus alunos, seus analisandos, seus gratos admiradadores, no mais alto respeito por sua constância no lugar que o ocupa há tantas décadas. Um Mestre e uma  escola de vida, sem esse nome. Sem rótulo algum, mas imensamente consistente.

 Então voltando ao livro que pergunta: Psicanálise é Ciência ou Arte? E responde, comparando a Ciência ao coelho de Alice, sempre atrasado em relação ao inconsciente. O sonho vem antes da realização. E portanto, há de se tornar uma "coruja antenadíssima" para exercer a arte de acolher os sonhos de quem chega pedindo socorro.(" pedindo penico", ele diz em outro momento).  Harry Potter e o espelho  Ojesed que reflete seus pais. Desejo de quem não os teve, diz Molina. Se os tivesse, o Ojesed refletiria o que os filhos gostariam de fazer com eles. E outros tesouros, como  uma carta de Freud se abstendo de apoiar o Sionismo, contra os ataques árabes a Israel,  traduzida em amplo sentido pelo autor de FragmentosdeUmaAnálise.com. A questão viadosXgays: "já não  fazem viados como antigamente". E viva Mme Satã. As tristezas de Edith Piaf, a arrogância  genética e neurocientífica. A precisão do morcego. Nada passa batido.

 Sua admiração por seu analista MDMagno, e a Nova Psicanálise. E sua aposta e fé nas pessoas que nasceram depois dos anos 90, essas que já chegaram com novíssimos chips e exigência de velocidade máxima. Para elas, uma análise só poderia mesmo ser on-line. Quem perderia tempo no transito se com um click se alcança a escuta apurada tão importante? São esses moços e meninos que provavelmente conviverão com os tais seres fabricados que, segundo Molina, também chamaremos de humanos.
                                                          Mick Molina Jagger: os dois com
                                                          70 anos. E um percurso muito lindo.
                                                           Sim sou fã. Da energia, da vivacidade,
                                                           do talento de cada um.


O repertório é vasto. E é só um "menu degustação" da obra de uma vida inteira. Não é para o bico de quem foi feito a "quatro tamancadas". É preciso tirar o cascão para começar a apreciar pensamento tão refinado. Que pode ser polêmico na visão de alguns. Mas irônico não é. É bem humorado mesmo. Quem diria: me lembro de um analista tão carrancudo,  com cara de Mick Jagger e coraçãozão canceriano. Mas esse é o meu. O da Zoia  Schvartz deve ser o dela, aliás ninguém faria prefácio mais bonito, com olhar tão preciso para este livro e autor. O da Maria Luiza Valente também, um analista único e pessoal.  E minha filha pré-adolescente,  tem ainda outra opinião, através do seu divã on-line. Nunca viu o "Molina" ao vivo. Nem reparou nisso. Ela conhece a voz e um rosto na penumbra de um consultório logo ali, naquele ambiente tao íntimo: o Skype.

 Agora, que sou eu a  mãe da moça, as vezes  peço: pelamordedeus, mais devagar. Esse ritmo geração 2000 me causa estranheza quando é a minha pequena que está na  reta. Em um processo que "nada garante", mas alivia o peso do trajeto que conduz a "indiferenciação"- que afasta das identificações fáceis com "crenças e ideologias" .  Que nos tira do aprisionamento.

E depois de passear pelos avanços do mundo que ainda virá, mas ele já está la, Molina chama a atenção para o grande fantasma: a exclusão. E pergunta: será que para o Brasil ainda há tempo de correr atrás do prejuízo? Quem sabe? Que cada um corra atrás do próprio tempo.
Peça já o seu livro:
 http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=1191&idProduto=1223  

Se não entender de cara o que está sendo dito, faça análise. Não é por falta de grana que essa 

possibilidade se fechará para você. Como diz o Mestre, na sua generosidade, "ninguém resiste a uma boa "cantada."
 
 Finalmente quero dizer que, além de babar por um livro bom, me derreto mais e melhor,  quando sou citada e com tanto carinho. Pode não ser uma confraria, mas fico feliz em fazer parte. E deixo aqui um  apontamento da novíssima Psicanalise : " se a cura quer dizer alguma coisa é isso: Cuide-se".
É você e só você quem pode querer a sua construção ou reconstrução, o seu melhor estar-indiferenciado- na civilização. A sua capacidade de dizer não quando achar que deve. Já é boa essa conversa. No mais, divirta-se. Com um livro que é pura subversão, na veia. E de preferencia, com a vida.
                                              FragmentosdeumaAnalise.com
                                               Agarre as  oportunidades.


Pauline Herbach (27 de julho de 2013)


Hoje, 19 de setembro de 2013 morreu Rubens Molina, perda irreparável para um Brasil que precisa tanto de dignidade. Ele foi psicanalista de algumas das boas cabeças pensantes desse país. A gente não nasce pensando livremente. É preciso aprender a olhar e ver. E a pensar, sem tanta influência daquilo que se diz por aí. Quem é você? Aí é que está. 
Pois que a genialidade e o coração generoso de Rubens Molina tenha aproveitado dessa estada, na civilização, bem dizendo o melhor possível do mal-estar que é a vida, a maior parte do tempo. A ele,  respeito e carinho. E infinito agradecimento.

04 maio 2016

"O Filho de Saul". E "Desajustados". O que redime tanta humilhação?

     Alguém precisa ser inferior para você ser superior, bacana, estável? É preciso acabar com muitas vidas, para que a sua  sobressáia? E por quase não haver respostas saudáveis a perguntas assim, simples, a esmo, é que existe tanta humilhação nesse mundo.
    
Acabo de assistir dois filmes muito bons: "O Filho de Saul" e "Desajustados".  
Em Auschwitz-Birkenau, um prisioneiro judeu, Saul,  é obrigado a trabalhar  para seus algozes, participando do teatro mórbido que antecedia as câmeras de gás: homens chegavam muitos, também prisioneiros. Eram levados a um lugar para tirarem suas roupas, o carrasco da hora dizia: "vocês aqui vão trabalhar, precisamos de muitos marcineiros, vamos se apressem, depois do banho tem a sopa e já está esfriando". E assim eram mortas centenas de pessoas de uma só vez, decepcionadas ainda, com a última e  falsa esperança de algum conforto moral, minutos antes. De que não seria tão ruim assim aquele lugar. Que haveria vida e trabalho. 
                                      Imagem de divulgação de "Filho de Saul"
   
  Há uns três anos atras meu filho esteve lá com seu pai, e, além de ver fotos de seus familiares, descobriu que as pessoas não morriam rapidamente nessas câmeras. Que não era gás, como o de cozinha, mas inseticida. Então as vezes permaneciam  vivos por dias, desesperados, arranhando as paredes,. E essas marcas ainda estão ali..
   
  É nesse cenário de sordidez radical, que Saul encontra um menino que sobrevive, e ainda respira. E de tanto horror , assume que aquele garoto é seu filho e que merece um enterro digno. É por esse direito ao enterro do filho que ele vai lutar todo o filme. 
   
  Se pensarmos bem, o filho de Saul também é nosso filho. Somos nós que, ao dizermos sim  as grandes e pequenas atrocidades dessa vida, estamos colaborando, deixando morrer a nossa cria, humana.  Saul busca a redenção de crimes, que ele sabe muito bem, ajudava a cometer, seja como for. Em nome de sobreviver. 
   
 Já "Desajustados", uma produção da Islandia com a Dinamarca- maravilhoso pensar que um país tão longe tão frio, tão fora da nossa geografia, tenha tanta delicadeza a nos transmitir: Fusi, o protagonista, tem 43 anos e vive com sua mãe, uma vidinha pra lá de simbiótica e acomodada. Mas o momento que o encontramos- o filme-, ele começa a descobrir pessoas, e o mundo se abre, mesmo que esse parto possa ser doloroso, ele vai de cabeça. Com todo o amor , a dedicação, o carinho de alguém que de bebê, virou gente grande da noite para o dia. Fusi é o oposto do enunciado desse post: não precisa humilhar ninguém para começar a fazer parte dessa existência de forma mais integrada. Me encantei com a sua singeleza. 
                                      Imagem de divulgação de "Desajustados"
  Todos nos somos um pouco Saul,  tentando sobreviver em meio ao caos, a desonra, a humilhação que essa vida besta nos cria. Todos nós somos também essa beleza de ser humano- Fusi- aquele que olha tudo e aceita o que vê com olhos de uma criança. Sem julgamento. 

  Um pouco de um, um pouco de outro.Mas qual é a nossa identidade? Qual é a nossa verdade? É preciso massacrar o outro, humilhar, humilhar, humilhar para se sentir alguém? 

  Pensemos nisso e sejamos um tanto mais economicos, não nos trocados, mas nas mesquinharias da alma. Nós merecemos um campo aberto para viver, E não um campo de concentração, uma prisão feita das nossas  próprias  maldades. Sejamos inocentes como Fusi. Assistam os dois filmes, bons, cada um do seu jeito.

  Ai vejo ali no blog da Georgia, " não vou deixar ninguém falar mal dos outros perto de mim". Adorei. É um caminho.