19 maio 2017

"Tu Achas que um Corpo Fica Resolvido?" "LAERTE-SE", o documentário sobre o cartunista que é mulher.

  Ela tem cabelos negros e depois mechados, sempre compridos, na história que a jornalista  Eliane Brum apresenta, com Lygia Barbosa da Silva. Duas diretoras, uma delas em cena. E a Laerte, que já foi o Laerte, consente depois de muito confabular, que essa exposição toda, poderia sim, ser maior ainda: em sua própria casa.

Abre-se então o livro de sua vida. Coragem não lhe falta para admitir a fragilidade diante do mundo. Uma mulher que "ainda  não tem todos os requisitos exigidos e requeridos-  pelo mundo- as vezes claramente excludente -trans." Pelo simples fato de que sua trans-formação vem acontecendo primeiro na cabeça. É um questionar tudo. Da subjetividade singular,  para o generalizante,,  aclamado, como o possível e louvável papel a ser representante da certidão de nascimento. Laerte fala de um "movimento". Depois questiona: "isso é um movimento?" É coletivo sim, possível nessa época. Hoje. Diferente da sua adolescência onde, conta,  desejar homens lhe parecia tão horrível que "preferia se tornar mulher". Soa familiar? Claro que sim.  Quantas pessoas se travestiram pela necessidade de naquele momento serem mulheres - ou homens-e não "pecarem" então... Embora vista-se de mulher, Laerte não finge ser uma mulher..

Laerte não nega a diferença. Nem parece querer  tamponar coisa nenhuma. Ao contrário,  o armário que escancarou,  já nem importa mais. É outro o processo. É o da busca profunda e reconhecimento da pessoa que é.

"Tu achas que um corpo fica resolvido?" Pergunta Eliane Brum com seu lindo sotaque do sul. E Laerte diz: "acho que um corpo não fica resolvido para todo sempre". Não mesmo. Quem  tem um corpo resolvido?  Que respondam os botox, as academias, as cirurgias plásticas, as dietas malucas, as enzimas para celulite, A batata doce, a clara de ovo,  as tinturas de cabelo, os selfies,os espelhos...  Quem  está "se achando", para valer, , no escurinho do seu canto?

                                          Laerte em ensaio  fotográfico  no documentário

E Eliane vai mais fundo: "um corpo pode ficar completo?" Talvez aludindo a um desejo de próteses de  silicone da cartunista, sem no entanto, precisar ou querer,  embutir a genitália... Laerte responde: "Não. O desenho também não". Há algo de uma  falta,  ela/ele reconhece e não esconde.

 Laerte está longe da perversão. Está mais para  uma delicada e corajosa experimentação pessoal, uma subversão, uma nova versão de si. " Publico há 40 anos e ainda tenho um desenho imaturo".. É Laerte tentando  se reconhecer,  se dizer, agora  em um novo território, onde leva consigo aquilo que também é.  Super cartunista , pai, avô e por ai vai.... de saias. Gostei. Roupas e bijous  meio hippies. Nada que faça dele uma caricatura forçada, de mulher.

" Você quer ser mulher mas não depilou o sovaco. Você quer ser mulher mas não sabe se sentar"..

.Deixa claro que ser mulher é  também partilhar de uma linguagem. Que está aprendendo.. " É algo que venho sentindo cada vez mais. É definitivo? Não sei".  Diz num exposto desamparo, que comove.

  "O corpo está incluído, mas não pode ser o centro. Senão a gente aceita a biologia como o único norte".

A mãe de Laerte é bióloga. E para ela foi difícil entender e aceitar. Seu filho combinou que para os netos ele seria "o vovô". Mas pelo que dá a entender,  através das festas mostradas, todo mundo ali convive bem com as escolhas de cada um.   A irmã de Laerte é  levantadora de peso, toda musculosa. O que não significa nada além de ser uma mulher que "puxa um ferro". Mas é a deixa para Eliane Brum: "na sua casa você é a princesa e ela e o guerreiro? ". Laerte responde pensativo: ... é.... Talvez ainda não tivesse olhado por esse ponto de vista. Mas já havia desenhado o que é "libertar uma princesa": um corpo de mulher, saindo da armadura de um guerreiro...

Laerte percebe "que está ficando velha".  É, nesse território, as mulheres são consideradas velhas antes dos homens. Pensa bem Laerte....Olhaí um ônus do bonus.  Mulheres sem prazo de validade, ainda é um conceito meio difícil  para os brasileiros e as brasileiras aceitarem... Mas não é o que o incomoda mais.  Com todas as suas questões está preocupado como qualquer dos nativos, com a política, com a corrupção, com a desigualdade social....
                                                     Charge da cartunista Laerte

Pelo zoom da câmera, olhando a Laerte de perto, ela é bonita. Tem um carão e talvez seja por isso  que usar  óculos  de grau e brincos com penduricalhos lhe caia bem... Nas outras mulheres me parece muita coisa para  rostos delicados: ou brincos ou óculos. Os dois juntos, só na Laerte. .Além do mais, ela não tem celulites. Pode colocar um vestido curtinho e sair sambando que não faz feio...Uau.

"Ainda não tive a experiencia  de ser desejada por um homem, como mulher".

Hum, fala isso com uma certa calma, que parece estar conectada  com o fato dele ter alguma coisa que as mulheres nunca tiveram . E daí conta que viveu- por um mês-  um caso de "amor com uma mulher  homossexual que se interessou pela mulher que sou". E fala do amor com muita convicção: "o amor é um país", que pelo que deu a ver,  ainda quer habitar e muito.

" A vida humana é para ser boa independente do gênero..." (sic)

Pois defina o "boa". Adoraria Laerte, que mesmo para o  convencional , aquele que na maternidade chamaram de menina ou menino, a vida fosse "boa". A vida humana é uma constante guerra interior, independente do gênero. Não é só a sua. O que irá nos redimir, o futuro dirá, com certeza.

Ao final do documentário, e algumas vezes no meio, Laerte,  aparece nú, com seu cabelão que bate na cintura,  Dessa vez, ao lado de uma bela moça,  também nua. Com seu corpo torneado e seios lindos. Ambos estão de costas.Em seguida, foco no rosto da moça. Penso: será a nora, que vimos na cena do casamento?  Não era. De frente, ambos tem as genitais masculinas. Seria ela o ideal de Laerte? Não sei. O que vale é que  ele/ela  parece muito contente ao lado dessa amiga/amigo.

"Em primeiro lugar eu sou uma farsa", ele diz em algum momento. Somos todos.  Mas aprendi muito com você Laerte. O Laerte, a Laerte.  Talentosa, corajosa. Capaz. Linda pessoa que nesse momento, já se considera mulher. E hoje se sente no direito de revindicar esse lugar. Por mim, está pra lá de aceita nessa tribo.



 Assista no Netflix. Vale muitos sacos de pipoca.


Essas fotografias são imagens que aparecem no filme. Fotografei da tela do computador. Não sei se pode. Caso não seja permitido, me avise que eu retiro. E se for permitido, coloco os créditos, que agora, ainda não sei.



23 janeiro 2017

Quando a gente quer dizer e não sai: "seu gatinho caiu do meu telhado"...

   Faz pouco tempo, escrevi um post que perguntava quem nunca ficou sem palavras diante de uma situação, de um sentimento , de um não saber se dizer? Hoje lendo o trabalho de uma colega e amiga, sobre quando é preciso se preocupar com a fala ou a  não fala de uma criança, voltei a pensar na fala do adulto.

As vezes esperamos uma palavra que não vem. Não queremos o silêncio que incomoda. E tentamos de alguma forma quebrar esse quebranto que é a vida quando emperra, mesmo querendo dar certo. É estranho. Amor correspondido não existe, Sabe por que? As pessoas são tão diferentes que mesmo com algumas semelhanças a nós, somadas com algumas idealizações que fizemos, jamais corresponderão ao ideal.  Por que essa é mesmo uma ideia, Nunca real,

Quando se trata de gente principalmente. Você pode dizer que esse carro é o "ideal" para uma família X. Mas esse conceito sempre será provisório: a familia ganha um novo membro, apertou um pouquinho. Os filhos crescem e o tal carro perde o sentido.  Ou qualquer outra coisa, vai pelo mesmo caminho.

Nos acostumar com a perenidade de cada coisa já é complicado. Da vida então, é bem difícil. Deveria ser tão natural entender que servimos para um par de sapatos, ou aquele outro fica melhor em nós. Que uns machucam os pés, apesar de lindos. E outros tão confortáveis, são feinhos de doer.Mas quem se importa quando está exausta?  Outros ainda, nem bonitos nem confortáveis, apenas baratos. Essa realmente não deveria ser uma qualidade.

E repetindo, quando se trata de gente, principalmnete.  Tem gente tão fácil de lidar, de comunicar, de ser alegre e gostar de tudo. Já outras são baratas por que tem cara de que vão durar pouco na vida da gente. Ai que horror dizer isso. Outras, por que de tão oferecidas parecem baratas.  Vê, comparar gente a objetos,  a mercadoria, cara ou barata, não dá certo.

Gente é o bem mais precioso do mundo, Nossos filhos, nossos amigos, nossas familias , disfuncionais ou não. Nossos amores, nossos colegas de trabalho. As populações do mundo. São todos companheiros dessa viagem. Que tanta gente já comparou brilhantemente, com a vida.

Como lidar então? Com esse serzinho tantas vezes impertinente que habita em nós?  Com aquelas feras que precisam de uma mansidão e não sabemos o que fazer para que isso aconteça? Qual o melhor jeito de educar nossos filhos? Ou ainda a pergunta que origina esse texto: como dizer aquilo que nos incomoda sem ferir. Sem criar um caso, sem fechar uma porta. Sem destruir uma pequena ou grande construção?

Descobri que o melhor jeito é a palavra justa: dizer assim, como a gente sente. De forma serena. Sem criar muita figura de linguagem, para não dar margem a múltiplos sentidos. Está certo que tem gente que não gosta de ouvir tin tin por tin tin que seu jeito de sentir as coisas, ver e viver é diferente do dela. Nem gosta de ouvir também que a própria se julga mais sensível que o restante da humanidade e portanto pode ferir, por que os que estão em volta são meio anestesiados, mas se sente suceptivel a qualquer palavrinha...

E vamos aprendendo a nos comunicar. Com as crianças , com os que precisam de uma comunicação clara. Seguindo em frente. Observando mais nossos sentimentos e nossa forma de expressa-los.

Sorte para você na próxima vez que tiver que dizer algo dificil de expressar.. Fale com calma, claramente, o mais simples possível. Não precisa dizer que o gatinho caiu seja la de que telhado for. Deixemos o gato no seu cantinho. Miau.


30 dezembro 2016

VIRANDO A PÁGINA.

  É bom virar a página, sim. Senão o final da história fica desconhecido. Manter-se na mesma página é não dar oportunidade para novos conhecimentos.
  Quantas vezes paralisamos simplesmente? E as vezes por muito tempo. Os anos se passam, e estamos ali, tentando decifrar as escrituras de uma mesma, repetida página. Sem sentido. Com um sentimento que pensamos que temos, mas é só uma repetição mental também. Já foi , já era. É tomar consciencia, tomar cuidado. E virar a página para ler mais e melhor. Para chegar às conclusões que interessam a você.
   As vezes falar do abstrato, mexe com o concreto do outro, é isso ai. Quem puder que entenda. Aqui o virar a página era simplesmente tirar a postagem anterior e vir para uma nova, que possa desejar a você um feliz 2017. Com tudo de bom que você merece.
  Minhas páginas velhas e amareladas, ja virei muitas delas. A gente sofre. Mas dá para ser assim. Vai! Vire a página. E descubra um ano novinho para você.

FELIZ ANO NOVO!!!
E beijos da Cam