22 outubro 2017

Ao procurar um livro na estante, achei outro e ai aconteceu: meu segundo encontro com Beuys.

            Isso. Acabei de encontrar um livro de Arte, que certamente baixou aqui, doado pelo meu padrasto. Ele é mestre em ler livros teóricos sobre Artes Plasticas e passar para mim. A única da família que não lida diretamente com a Arte, a História da Arte, os pintores mais importantes, enfim, por ai.

         Para apresentar o grande artista, tive que dar uma olhada no Google. E aí descubro que Joseph Beuys, nascido na Alemanha ( 1921-1983),  estudou Medicina, se alistou nas forças aéreas na segunda guerra mundial. E vale a pena dar uma lida em sua biografia, cheia de percurso e repertório. Do jeito que considero a vida bem vivida: repertório e percurso, já são hoje modos interessantes de selecionar pessoas para determinados trabalhos.         

   Conheço pelo menos duas clínicas, uma na França e outra no Rio de Janeiro,  em que o profissional entra menos pelo currículo  e mais pelo que faz nas horas vagas, pelo que fez antes do que faz,  e ainda, por aquilo que se interessa. Idade e currículo realmente contam menos, na hora de formar uma equipe cheia de afinidades.    

    Mas vamos ao ponto: há muitos anos atrás, já nem lembro o ano, em NY , vi uma exposição de Beuys. Exatamente a mesma que é descrita na pagina desse livro que abri. Era a exposição itinerante, retrospectiva de uma época do artista e não de toda obra, tipica do Moma.  Ficava no subsolo. Me lembro de ter passado rente a um  salão, com o chão tomado por quadro- negros, preenchidos com muito texto e sinais. Pensei: chato, estou cansada de andar. Não quero ver. Mas guardei o nome: Beuys. Um dia contei sobre isso a uma amiga, e a minha mãe, duas artistas plásticas importantes.  E ouvi a mesma reação: uma exposição do Beuys, ele é tão maravilhoso, queria ter ido!!! E eu num ataque  de adolescência tardia disse: ah tão chato, nem prestei atenção. Mais para provocar do que para contar a não toda verdade.

   Tanto que lembro do nome até hoje. E foi com grande prazer que li a tal página: aquela exposição era a mostra, de uma outra, anterior; " Arte Dentro da Sociedade- Sociedade Dentro da Arte", do Instituto de Artes Contemporâneas, de Londres.

    Ali ao invés de expor uma obra acabada, Beuys, artista convidado,  preferiu colocar diversos quadro-negros sob tripés, e  ir fazendo palestras contínuas para o público que passava.  Ao mesmo tempo em que  escrevia palavras e gráficos, como se fosse uma aula de vida acontecendo, em forma de diálogo com os passantes. Quando os quadros iam sendo preenchidos, ele os jogava ao chão. Ao que chamou então de "Ação de Arremesso".

    O que vi em NY era o fruto da exposição em Londres anos antes. Cheia de interação, diálogos, palavras, significantes. Uma sala que parecia nada conter, apenas aquele chão chato. E no entanto, plena de vida. Eu é que não soube olhar.

    E quantas vezes a gente passa a vida inventando versões para o nada, ao invés de olhar o que de fato ocorre e pode ser tão poético e lindo, bem na nossa frente?
   
     Anos mais tarde, com minha filha ainda garotinha, me emocionei logo na entrada do Museu do Le Quai Branly, em Paris, com o rio de palavras do mundo inteiro, correndo sob nossos pés.

      Minha visão já tinha se alargado. Meu percurso e meu repertório, já estavam muito maiores. E as possibilidades de apreciação ao que vida nos oferece sem aviso prévio, também.

     A conclusão que tiro depois de abrir aleatoriamente a página do livro, é de maior apreço ainda a Psicanálise. É com ela que limpamos a área, tiramos a lamacenta e velha neurose, para aceitar nossa sensibilidade aguçada,  sem  maiores medos de possíveis  choques com cada momento. A vida é repleta de incertezas e essa é a nossa grande recompensa por estarmos vivos entre frases no gerúndio e alguns pontos bem marcados. Tudo está acontecendo. No tempo.  Quem souber e tiver competência que escute o cantar dos passarinhos ou deixe passar. Que se toque por uma exposição de quadros negros estirados,. Ou não.  Que use a curiosidade como instrumento dos mais importantes, e sempre afiado, diante do viver. Que esteja presente, presenteando-se.

       Muito prazer Beuys, hoje tenho olhos e ouvidos para você.


19 maio 2017

"Tu Achas que um Corpo Fica Resolvido?" "LAERTE-SE", o documentário sobre o cartunista que é mulher.

  Ela tem cabelos negros e depois mechados, sempre compridos, na história que a jornalista  Eliane Brum apresenta, com Lygia Barbosa da Silva. Duas diretoras, uma delas em cena. E a Laerte, que já foi o Laerte, consente depois de muito confabular, que essa exposição toda, poderia sim, ser maior ainda: em sua própria casa.

Abre-se então o livro de sua vida. Coragem não lhe falta para admitir a fragilidade diante do mundo. Uma mulher que "ainda  não tem todos os requisitos exigidos e requeridos-  pelo mundo- as vezes claramente excludente -trans." Pelo simples fato de que sua trans-formação vem acontecendo primeiro na cabeça. É um questionar tudo. Da subjetividade singular,  para o generalizante,,  aclamado, como o possível e louvável papel a ser representante da certidão de nascimento. Laerte fala de um "movimento". Depois questiona: "isso é um movimento?" É coletivo sim, possível nessa época. Hoje. Diferente da sua adolescência onde, conta,  desejar homens lhe parecia tão horrível que "preferia se tornar mulher". Soa familiar? Claro que sim.  Quantas pessoas se travestiram pela necessidade de naquele momento serem mulheres - ou homens-e não "pecarem" então... Embora vista-se de mulher, Laerte não finge ser uma mulher..

Laerte não nega a diferença. Nem parece querer  tamponar coisa nenhuma. Ao contrário,  o armário que escancarou,  já nem importa mais. É outro o processo. É o da busca profunda e reconhecimento da pessoa que é.

"Tu achas que um corpo fica resolvido?" Pergunta Eliane Brum com seu lindo sotaque do sul. E Laerte diz: "acho que um corpo não fica resolvido para todo sempre". Não mesmo. Quem  tem um corpo resolvido?  Que respondam os botox, as academias, as cirurgias plásticas, as dietas malucas, as enzimas para celulite, A batata doce, a clara de ovo,  as tinturas de cabelo, os selfies,os espelhos,...  Quem  está "se achando", para valer, , no escurinho do seu canto?

                                          Laerte em ensaio  fotográfico  no documentário

E Eliane vai mais fundo: "um corpo pode ficar completo?" Talvez aludindo a um desejo de próteses de  silicone da cartunista, sem no entanto, precisar ou querer,  embutir a genitália... Laerte responde: "Não. O desenho também não". Há algo de uma  falta,  ela/ele reconhece e não esconde.

 Laerte está longe da perversão patológica. Está mais para  uma delicada e corajosa experimentação pessoal, uma subversão, uma nova versão de si. " Publico há 40 anos e ainda tenho um desenho imaturo".. É Laerte tentando  se reconhecer,  se dizer, agora  em um novo território, onde leva consigo aquilo que também é.  Super cartunista , pai, avô e por ai vai.... de saias. Gostei. Roupas e bijous  meio hippies. Nada que faça dele uma caricatura forçada, de mulher.

" Você quer ser mulher mas não depilou o sovaco. Você quer ser mulher mas não sabe se sentar"..

.Deixa claro que ser mulher é  também partilhar de uma linguagem. Que está aprendendo.. " É algo que venho sentindo cada vez mais. É definitivo? Não sei".  Diz num exposto desamparo, que comove.

  "O corpo está incluído, mas não pode ser o centro. Senão a gente aceita a biologia como o único norte".

A mãe de Laerte é bióloga. E para ela foi difícil entender e aceitar. Seu filho combinou que para os netos ele seria "o vovô". Mas pelo que dá a entender,  através das festas mostradas, todo mundo ali convive bem com as escolhas de cada um.   A irmã de Laerte é  levantadora de peso, toda musculosa. O que não significa nada além de ser uma mulher que "puxa um ferro". Mas é a deixa para Eliane Brum: "na sua casa você é a princesa e ela e o guerreiro? ". Laerte responde pensativo: ... é.... Talvez ainda não tivesse olhado por esse ponto de vista. Mas já havia desenhado o que é "libertar uma princesa": um corpo de mulher, saindo da armadura de um guerreiro...

Laerte percebe "que está ficando velha".  É, nesse território, as mulheres são consideradas velhas antes dos homens. Pensa bem Laerte....Olhaí um ônus do bonus.  Mulheres sem prazo de validade, ainda é um conceito meio difícil  para os brasileiros e as brasileiras aceitarem... Mas não é o que o incomoda mais.  Com todas as suas questões está preocupado como qualquer dos nativos, com a política, com a corrupção, com a desigualdade social....
                                                     Charge da cartunista Laerte

Pelo zoom da câmera, olhando a Laerte de perto, ela é bonita. Tem um carão e talvez seja por isso  que usar  óculos  de grau e brincos com penduricalhos lhe caia bem... Nas outras mulheres me parece muita coisa para  rostos delicados: ou brincos ou óculos. Os dois juntos, só na Laerte. .Além do mais, ela não tem celulites. Pode colocar um vestido curtinho e sair sambando que não faz feio...Uau.

"Ainda não tive a experiencia  de ser desejada por um homem, como mulher".

Hum, fala isso com uma certa calma, que parece estar conectada  com o fato dele ter alguma coisa que as mulheres nunca tiveram . E daí conta que viveu- por um mês-  um caso de "amor com uma mulher  homossexual que se interessou pela mulher que sou". E fala do amor com muita convicção: "o amor é um país", que pelo que deu a ver,  ainda quer habitar e muito.

" A vida humana é para ser boa independente do gênero..." (sic)

Pois defina o "boa". Adoraria Laerte, que mesmo para o  convencional , aquele que na maternidade chamaram de menina ou menino, a vida fosse "boa". A vida humana é uma constante guerra interior, independente do gênero. Não é só a sua. O que irá nos redimir, o futuro dirá, com certeza.

Ao final do documentário, e algumas vezes no meio, Laerte,  aparece nú, com seu cabelão que bate na cintura,  Dessa vez, ao lado de uma bela moça,  também nua. Com seu corpo torneado e seios lindos. Ambos estão de costas.Em seguida, foco no rosto da moça. Penso: será a nora, que vimos na cena do casamento?  Não era. De frente, ambos tem as genitais masculinas. Seria ela o ideal de Laerte? Não sei. O que vale é que  ele/ela  parece muito contente ao lado dessa amiga/amigo.

"Em primeiro lugar eu sou uma farsa", ele diz em algum momento. Somos todos.  Mas aprendi muito com você Laerte. O Laerte, a Laerte.  Talentosa, corajosa. Capaz. Linda pessoa que nesse momento, já se considera mulher. E hoje se sente no direito de revindicar esse lugar. Por mim, está pra lá de aceita nessa tribo.



 Assista no Netflix. Vale muitos sacos de pipoca.


Essas fotografias são imagens que aparecem no filme. Fotografei da tela do computador. Não sei se pode. Caso não seja permitido, me avise que eu retiro. E se for permitido, coloco os créditos, que agora, ainda não sei.



30 dezembro 2016

VIRANDO A PÁGINA.

  É bom virar a página, sim. Senão o final da história fica desconhecido. Manter-se na mesma página é não dar oportunidade para novos conhecimentos.
  Quantas vezes paralisamos simplesmente? E as vezes por muito tempo. Os anos se passam, e estamos ali, tentando decifrar as escrituras de uma mesma, repetida página. Sem sentido. Com um sentimento que pensamos que temos, mas é só uma repetição mental também. Já foi , já era. É tomar consciencia, tomar cuidado. E virar a página para ler mais e melhor. Para chegar às conclusões que interessam a você.
   As vezes falar do abstrato, mexe com o concreto do outro, é isso ai. Quem puder que entenda. Aqui o virar a página era simplesmente tirar a postagem anterior e vir para uma nova, que possa desejar a você um feliz 2017. Com tudo de bom que você merece.
  Minhas páginas velhas e amareladas, ja virei muitas delas. A gente sofre. Mas dá para ser assim. Vai! Vire a página. E descubra um ano novinho para você.

FELIZ ANO NOVO!!!
E beijos da Cam