Escuto assim: "chocolate derretido"...será que foi isso que ouvi....relógio derretido... Nossa... o que você está me perguntando... saio de minha distração a observar pessoas pagando nas diversas caixas do supermercado. É a minha vez, passo os produtos e a moça sorridente do caixa fala comigo. Ela insiste na pergunta: é o relógio derretido do Salvador Dali? Olho para ela sem entender direito. Ela aponta para meu colar.
Começo a sorrir de alegria. E repondo: sim! É sim! Claro! É isso mesmo. É o relógio derretido de Salvador Dali ! ( o pintor surrealista espanhol o repete em quadros. E está ali reproduzida em uma pequena bijuteria prateada no meu pescoço). Por mais alguns segundos lembro do museu em Paris e do dia em que compramos essas pequenas jóias: eu, minha filha e minha mãe. Que viagem linda e importante para nós, apesar do calor anormal que fazia, lá se vão 12 anos.
A moça continua animada com a conversa e suponho, com a minha receptividade.. Eu pelo menos fiquei entusiasmada em escutar o que me dizia. Ela fala em Magritte. E aí diz: eu gosto dos surrealistas, mas prefiro os impressionistas. Vai discorrendo uma lista de comentários inteligentes, rápidos o suficiente para manter a conversa, enquanto passo as compras e ela digita..Já não me lembro com que gancho, pergunta se gosto da Frida Kahlo. Sim! E se conheço uma pintora contemporânea dela: Remédios Varo. É mesmo? Não conheço, mas vou procurar saber. A moça me fala de um quadro com o céu que vai descendo pela tela...Você estuda Artes? Ela diz que não. Eu digo: ah sim, você gosta, aprecia as artes plásticas. Ela sorri. É isso.
É isso e muito mais. Ou muito menos. La vou eu com minhas sacolas pensando: escola, universidade, oportunidades, futuro...
Alguns dias depois volto ao super mercado. Reconheço a moça do caixa: foi você quem me falou do Salvador Dali? Ela confirma e pergunta: você já leu sobre a Remedios? Ainda não, respondo. Mas vou ler. Contei para todo mundo o que você disse sobre meu relógio derretido. Você foi a única pessoa até hoje que conseguiu associar a imagem dos quadros aquela bijou... É verdade. Mais tarde penso: meu pequeno reconhecimento- um elogio, tentando tapar o buraco das imensas desigualdades desse país, ainda mais com a população negra, historicamente desprivilegiada, que tem dois muros pela frente: a pobreza e o preconceito racial. Talvez o sistema de cotas possa fazer alguma justiça. Mas, e o percurso até a universidade. É possível? Ou alguém com tanto interesse e entusiasmo pela vida, ha de estacionar no caixa de um supermercado? Nem adianta o auto- engano redentor de nossas consciências, não se trata de "meritocracia" . O futuro é desafiador, requer muita luta de um lado, e o abrir mão, de outro.
Torço por você moça do Dali. Que o mundo seja acessível ao seu usufruto, para além da sua caixa registradora.