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28 setembro 2014

Emoções de mãe, a tardinha.

 Emoções da tarde: minha pequena de 13 anos, carinha de moça  e corpinho de 20 chega da rua.Foi pela primeira vez sozinha ao cinema com suas amigas. Volta animada:"o filme tem uma moral interessante. O sol já tinha derretido os planetas da frente, agora a Terra era o planeta mais próximo, o mundo estava esquentando...." O mundo realmente, esta esquentando. Falo de Zizek, e leio para ela um texto do pensador lacaniano e marxista. Ele também gosta de observar o que tem por trás dos filmes.
                                                                  Zizek
A telona fascina. É o sonho de alguém ou de muitos, projetado ali. Parece real e é. Mas ao mesmo tempo não é. E o que é real?.... Ela conta que já leram mais de n textos de Karl Marx na escola," mas que ainda não entendeu direito".
                                                              Marx

Eu digo- Marx tem tantas teorias, tanta coisa para entender. Mas tem uma parte que parece mais fácil.  Ele enxergava a realidade e dividia o mundo capitalista, entre aqueles que "tem, detém os meios de produção e aqueles que não. Por exemplo, numa fábrica: alguém é dono da fábrica,das máquinas, A maior parte das pessoas não é. Então vendem a sua força de trabalho, trabalham naquelas maquinas o dia inteiro para produzir montes de coisas que serão vendidas depois. Essas pessoas ganham apenas um salário, não são donos nem das máquinas e nem do que foi produzido. Assim funciona o capitalismo. E antigamente era mais assim a ferro e fogo. Não tinha o shopping, o dono do shopping, as lojas, o comércio tão sofisticado, os serviços tão caros, mas dá para entender assim não é? Pergunto quase afirmando.

"Dá para entender sim, é como aquele filme do "Cavalo de Guerra" de Spielberg? Eles não eram donos das terras, e tinham que dar para o proprietário quase toda a plantação".... "exatamente, você lembrou muito bem. É o mesmo mecanismo de exploração do homem"...."pelo homem?",ela pergunta. Pois é . Filme lindo,  respondo.
                                             Set de "Cavalo de Guerra", na foto tb o diretor
                                                               Steven Spielberg
                                             
Assistimos a "Dança dos Famosos". E mais uma vez reparo que os atores raramente votam para tirar outros atores. Medo de perder a camaradagem? Acho que sim, penso eu. .Foi assim que Anita, sensacional, dançou outro dia. "Ah, ainda estou chateada por que Anita saiu"..diz Anna.. Ela não é atriz e nem contratada  daquela  tv-  palpito. Acho que sempre ganha algum ator ou  atriz que eles queiram promover. Não sei se já ganhou alguém que não seja ator da casa. Ela diz:" é não sei.  Sabe o que ainda estou querendo aprender? Aquele passo do Michael Jackson. Meu professor de hip hop já me ensinou várias vezes e eu não sei."...
Fico pensando se Anna está querendo me agradar, por que quando ela era menor, ensinei essas coisas todas. Talvez queira me mostrar que ainda posso dançar como uma... bailarina.Ih se for essa ideia, estou longíssimo disso. Perna de pau. Mas ainda sei fazer o passo. E digo:você lembra que já te ensinei isso? Andar parado, subir e descer escada, olhar acima do muro? Ela então faz os movimentos de mímica com  precisão, me admiro. Mas de fato o andar parado está com uns pulinhos que não deveria. Agora para fazer o "Moonwalk"do Michael Jackson, digo,  é só  voltar  com a perna que foi para frente  e não ficar ao lado do pé que ficou  parado, Ir cada vez mais para trás.
                                                                        "Moonwalk"
E treinamos... Ela fica satisfeita.  Amanha podemos treinar um pouco mais antes da aula. O que acha?"Mãe, adorei. E a conversa sobre Marx, tudo". Eu também filha, Marx era muito bacana, ruim é o que fazem em nome dele....complemento.... Essa parte explico depois, daqui uns anos, política, partidos...Aff.  E a filha foi dormir.

Termino então de assistir um filme muito bom, que conta a história do programa mais popular da tv inglesa em todos os tempos: "The Road to Coronation Street", escrito e idealizado por um ex ator mirim, Tony Warren. E que inspirou os atuais reality shows. Vale a pena assistir. Em Português o título é " A Vida de Pessoas Reais".
                                                           A vida de pessoas reais

E estou bem adiantada na leitura do livro de Renata Cromberg sobre Sabina Spielrein. Uma pessoa de rara sensibilidade. Uma guerreira na Psicanálise e na vida. E uma de suas  filhas chamava Renata. Assim vou intuindo que Renata Cromberg também  teve esse significante, o próprio nome, para criar mais um laço afetivo com a Sabina.

Preciso dormir cedo, amanhã é a tal da segunda feira. Fico feliz de ter mais alguma coisa para alimentar a minha filha: repertório. E espero viver o bastante para vê-la crescer forte e ser em toda a sua potencialidade, o mais possível.

Boa semana.


(todas as imagens encontradas no Google)

12 setembro 2012

Construir a vida como quem constrói uma casa.

   Desde muito cedo estamos construindo nossas vidas.  Se a  "casinha" é de palha, de madeira ou de tijolo  isso é da  competência  de cada um. Lembre-se que o lobo mal  tem fôlego...    E se fizer de tijolo  a sua construição,  lembre-se  de colocar portas, janelas,  e mante-las abertas parte do dia, para promover uma  boa  circulação de  fora  para dentro e de dentro  para  fora.
  Deixe um caminho bem claro,  se quiser que  encontrem você. Cheio de pedras, cheio de flores,  dificil, largo ou estreito, isso ai também vai da vontade ou da capacidade do construtor.
   O bom de tudo é sabermos que é mesmo uma construção. Pessoal.  Cabe a nós decidir com preguiça ou sem preguiça, arrumando recursos como for possível, para  ter  uma casa gostosa de habitar: desde  os  cuidados com  a saúde, a alimentação, aquilo que se lê, como se instrui, as viagens que pode fazer- nem que seja para perto- vale o divertimento e a capacidade de observação , os amigos que tem, os laços que faz.  O  conjunto da obra  vai-se perceber lá  na frente.
                                                        foto  de  Manoel  Caraballo

    As vezes nos  deparamos com idosos vivendo um grande luto, não daquilo que se foi. Mas do que poderia ter sido.  Do que nem  sequer foi experimentado. Ninguém gosta dessa sensação. E mesmo se a casa for linda, não é  promessa,   a não desilusão. É  garantia de um conforto maior,com certeza.
    Então, pá, cimento e muito material  criativo .Vamos que vamos.  Lembre-se de fazer um belo jardim,  para seu proprio deleite.  Abrir a janela de manhã e perceber que  as  sementes  plantadas desabrocham harmoniosamente,  é  bom demais.
   Beijos  para vocês: casas,  casinhas, prédios, barracos, barraquinhas, arranhacéus  do meu coração.  A idéia  foi dar um alô.  Na frente da minha casa tem uns  azulejos que juntando as letras de cada um,  se lê:  bem  vindos!. Bem  vindos  então..

09 setembro 2012

VIDA. SOBRE O DIREITO DE ESCOLHER COMO MORRER.



A   Veja dessa semana traz uma  importante reportagem: "O Direito de Escolher", com depoimento de diversos médicos , sobre a possibilidade de se deixar “diretrizes antecipadas de cuidados à vida" referentes ao que fazer,  frente a  proximidade da morte.
  
Penso que é um direito que se tem: decidir.  Um amadurecimento das relações paciente/medico, paciente/Saúde/ /Estado. Ser Humano/Vida.

“A Decisão do Conselho Federal de Medicina muda a conduta  do médico brasileiro ao reconhecer  a legitimidade do testamento vital, documento  no qual os pacientes registram  o tratamento que desejam receber quando a morte se aproxima”.

Assim começa a reportagem, que vem a demonstrar como  seria um desses "testamentos vitais", através do exemplo da médica geriatra, Ana Claudia Arantes, que decidiu  fazer o seu. Talvez para levantar 
uma bandeira. Ela que , segundo a matéria, testemunha em média, a morte de 20 pacientes ao mês.
                                        banco de imagens Pixmac ( por uma boa causa, grata)

Pelo que entendi, a  necessidade de se criar diretrizes para um tratamento ou sua suspensão, fazer um  testamento nesse sentido, tem a ver com o direito de pacientes que,  estando em  situação  terminal e sabedores disso,  não queiram sofrer até o último suspiro, incomodados  com médicos e enfermeiros, tentando fazê-los respirar por mais alguns dias, meses ou minutos. .   Ou  evitar um possível estado vegetativo, quando o cérebro não retomará ao seu estado original de funcionamento, numa UTI,   terminando com  o que sobraria de suas economias que,  talvez prefiram,  deixar para a tranqüilidade da família.

Parece cruel   falar assim, mas é só a nua e crua a realidade de todos nós,  um dia. Em que  num determinado momento   a proximidade da morte pode estar  tão clara,  com diagnóstico preciso e grave, e sem a possibilidade de remissão,   que a melhor o coisa  é o direito de escolher até aonde se deve ir na tentativa de prolongar ou não a própria existência. E isso tem que ser respeitado.

É claro que cada pessoa há de ter um critério, um olhar para vida e para a morte. Um conceito de qualidade de vida, do que é sofrimento e sua capacidade de suporta-lo. É muito pessoal. E parece ser essa a proposta: uma atitude pessoal, que seja feita com muito cuidado. Com toda documentação possível  na presença do  médico de confiança ( será que todo mundo tem ou pode ter um?) ,e com  outras testemunhas.  Será válida a gravação, voz e imagem, do paciente dizendo o que tem vontade de fazer. Mas sugere-se na reportagem, que se deixe por escrito, com pelo menos duas testemunhas. E é bem claro na  revista: que esse testamento pode ser revogado ou modificado pela pessoa que o fez, a qualquer momento.

O mais interessante para começar, é terminar com esse tapar o sol com a peneira: não você não vai morrer não! Que bobagem, é só um resfriadinho... Isso é falta de respeito, com quem quer  saber de si.
Tenho alguns exemplos distintos, que acompanhei na vida. Vou contar do que vi, com meus parentes.

Meu avô.
Estava diabético em um estado bem grave. Caira durante o trabalho, e a ferida não mais cicatrizava. Não queria se tratar. Fingia para minha avó ficar feliz, que estava fazendo a dieta recomendada. Mas tinha caixas de bombom pela casa e comia com prazer.  Eu lhe dizia: vovô assim você vai morrer. E ele: eu sei. Já fiz tudo que eu queria na vida. Agora quero morrer em paz, sem ninguém me dizer o que devo fazer.   
 Quando começou a ficar meio inconsciente, com os picos de açúcar no sangue, levaram-no para o hospital. Lá , ficou muito contrariado. Chegou a ir para uma UTI, e ali acordou em pânico e surpreso. Jurou que não voltaria mais para uma unidade dessas. E dizia: "no dia 31 de dezembro  volto para casa". Eu estava com ele nesse dia , quando a enfermeira bestamente chamou a UTI pelo aparelho de telefone ao seu lado, como se meu avô  fosse incapaz de escutar e compreender. Ela encurtou a conversa.  Ele teve um enfarte fulminante ali mesmo na madrugada do dia 31 de dezembro, como  dizia. Mas não "em paz" como queria. Sofreu uma ameaça: UTI.

Meu sogro.
Tinha um câncer que ele sabia ser fatal. Já tinha passado pela mesma saga vinte anos antes, e dessa vez percebeu que seria diferente. Foi mesmo.  Durante o tempo em que ficou internado em um hospital caríssimo, que seu seguro de saúde não cobria, estava inconformado. Ficou melhor quando o levaram para um conhecido hospital  que tem seu próprio seguro saúde, do qual ele foi um dos  primeiros associados.   
No dia que sentiu  seu tempo terminando,  ficou assustado. Difícil estar  totalmente consciente como ele estava, em uma hora dessas.  Não conseguia mais falar, e enquanto os familiares estavam ao seu lado,  fazia um gesto para a médica que o observava,  de que queria uma injeção. Estávamos eu e ela na porta do quarto. Eu lhe dizia:  veja, ele está pedindo uma injeção, um calmante, está com medo, dá a injeção nele, por favor. Ela respondia: “se eu der a injeção ele vai morrer, está muito fraco”. Eu retrucava- ele  está morrendo, seu ultimo desejo é tomar uma injeção e morrer tranquilo. Dá a injeção. Enfim,  morreu minutos depois,  sem a injeção.  E a médica não ficou com a “culpa” no prontuário, de ter permitido um remedinho que humanizasse a partida do meu sogro.

Minha avó.
 Teve uma morte bem mais  suave. Minha tia  e eu, já tínhamos vivido a experiência do vovô, marido dessa avó. Nós duas revezávamos dormidas no hospital naquela época e não queríamos que a vovó tivesse o mesmo tratamento, estranho e frio. Sabíamos com certeza o que ela tinha: metástase em quase todos os órgãos vitais. Escondeu de nós enquanto pode,  os imensos sinais.  Quando tomamos conhecimento, já era inútil qualquer tentativa de tratamento . O oncologista a visitava todos os dias. Fomos vendo-a pouco a pouco desligar sua consciência desse mundo. Ainda bem, ela tinha muito medo desse assunto todo.  Assim, ficou na casa da minha tia   até o último dia, quando , por cautela,  chamou uma ambulância para vovó passar seu finalzinho em um  hospital, e não sofrer qualquer dor.  Passei a noite com ela. No dia seguinte  bem cedo minha tia chegou. Vovó só estava esperando-a. Se foi.  Não precisou deixar  “diretrizes”. Nosso respeito por ela, fez com que as coisas andassem como seria possível suportar, aquilo que para ela era indizível.

Minha sogra belga.
A mãe do meu segundo marido morava em NY  e sabia que ia morrer. Já havia resistido a um gravíssimo quadro, anos antes.  E dessa vez tinha escondido a doença, talvez de si,  por um tempo. Agora estava ali  um câncer, já em estado muito avançado. Não podia ficar em casa, pois precisava já dos recursos de um hospital. Mas também não queria um ambiente impessoal. Minha cunhada conseguiu um dessas pequenas  casas de saúde que mais parecem uma casa de repouso. Vi  todo o carinho , com que  ela  arrumou aquele quarto, levando porta-retratos e outros pertences de minha sogra, para criar ali um ambiente aconchegante. Ao mesmo tempo, a tal clinica tinha uma rotina: todos os dias os pacientes deveriam passar por uma fisioterapia. Vi quando os filhos e a neta Americana, sempre presente junto aquela querida avó, tentaram convencê-la de participar do programa. Me lembro bem de sua reação: “ estou  morrendo, vocês não entenderam?  Não vou fazer fisioterapia nenhuma, quero ficar quieta aqui”. Claro que foi antendida pela família.

Minha sogra brasileira.
A  mãe do meu primeiro marido: percebi pelas palavras de minha ex-cunhada, que aquele era o momento. Viajei para o Rio de Janeiro e passei com minha  sogra  e amiga, o  que seria o seu último dia.. Estava claro, pelo menos para mim e provavelmente, para os médicos que a atendiam. Ainda assim, além do soro, tentavam alimentá-la com sucos e sopas. Para que? Ela dizia: "minha boca está seca, não quero mais comer, não agüento". Assegurei a ela que ninguém lhe daria mais nada forçado. Ela me olhou bem nos olhos e disse corajosa: "estou cansada.". Entendi. Segurei  sua mão e ali fiquei um tempo. Naquela madrugada ela se foi, no mesmo hospital que anos antes meu sogro havia pedido uma injeção e lhe foi negada.  Já minha sogra, foi atendida quando decidiu deixar de se alimentar. Está certo, a glicose e os sais estavam correndo.  Mas já foi um avanço em termos de humanização do fim.

Então ao ler sobre essas  tais" diretrizes" entendo perfeitamente o que seja respeitar vontades em momentos  tão críticos.  Como disse mesmo a reportagem esclarecedora da questão que já está sendo polemica: "não  se trata, por exemplo,  de um jovem rapaz que tenha sofrido um acidente e  todas as tentativas serão feitas". Nem de pessoas que possam ter enfermidades gravíssmas, mas com toda a possibilidade de cura. O assunto diz respeito às pessoas com doenças graves, em estado avançado, cansadas de padecer e sem possibilidade de recuperação. Um final de  vida digno e uma morte suave, é a esperança.  Menos hipocrisia e mais humanidade diante do  sofrimento. Aquilo que a OMS convencionou como sendo "Saúde", ao meu ver,  passa também por aí.

A eutanásia da cachorra. O quarto ao lado. A morte nas cores de Almodóvar.

          Se teve uma situação que me comoveu muitíssimo, me entristeceu e também me tranquilizou, foi quando durante a pandemia, minha fil...