09 setembro 2012

VIDA. SOBRE O DIREITO DE ESCOLHER COMO MORRER.



A   Veja dessa semana traz uma  importante reportagem: "O Direito de Escolher", com depoimento de diversos médicos , sobre a possibilidade de se deixar “diretrizes antecipadas de cuidados à vida" referentes ao que fazer,  frente a  proximidade da morte.
  
Penso que é um direito que se tem: decidir.  Um amadurecimento das relações paciente/medico, paciente/Saúde/ /Estado. Ser Humano/Vida.

“A Decisão do Conselho Federal de Medicina muda a conduta  do médico brasileiro ao reconhecer  a legitimidade do testamento vital, documento  no qual os pacientes registram  o tratamento que desejam receber quando a morte se aproxima”.

Assim começa a reportagem, que vem a demonstrar como  seria um desses "testamentos vitais", através do exemplo da médica geriatra, Ana Claudia Arantes, que decidiu  fazer o seu. Talvez para levantar 
uma bandeira. Ela que , segundo a matéria, testemunha em média, a morte de 20 pacientes ao mês.
                                        banco de imagens Pixmac ( por uma boa causa, grata)

Pelo que entendi, a  necessidade de se criar diretrizes para um tratamento ou sua suspensão, fazer um  testamento nesse sentido, tem a ver com o direito de pacientes que,  estando em  situação  terminal e sabedores disso,  não queiram sofrer até o último suspiro, incomodados  com médicos e enfermeiros, tentando fazê-los respirar por mais alguns dias, meses ou minutos. .   Ou  evitar um possível estado vegetativo, quando o cérebro não retomará ao seu estado original de funcionamento, numa UTI,   terminando com  o que sobraria de suas economias que,  talvez prefiram,  deixar para a tranqüilidade da família.

Parece cruel   falar assim, mas é só a nua e crua a realidade de todos nós,  um dia. Em que  num determinado momento   a proximidade da morte pode estar  tão clara,  com diagnóstico preciso e grave, e sem a possibilidade de remissão,   que a melhor o coisa  é o direito de escolher até aonde se deve ir na tentativa de prolongar ou não a própria existência. E isso tem que ser respeitado.

É claro que cada pessoa há de ter um critério, um olhar para vida e para a morte. Um conceito de qualidade de vida, do que é sofrimento e sua capacidade de suporta-lo. É muito pessoal. E parece ser essa a proposta: uma atitude pessoal, que seja feita com muito cuidado. Com toda documentação possível  na presença do  médico de confiança ( será que todo mundo tem ou pode ter um?) ,e com  outras testemunhas.  Será válida a gravação, voz e imagem, do paciente dizendo o que tem vontade de fazer. Mas sugere-se na reportagem, que se deixe por escrito, com pelo menos duas testemunhas. E é bem claro na  revista: que esse testamento pode ser revogado ou modificado pela pessoa que o fez, a qualquer momento.

O mais interessante para começar, é terminar com esse tapar o sol com a peneira: não você não vai morrer não! Que bobagem, é só um resfriadinho... Isso é falta de respeito, com quem quer  saber de si.
Tenho alguns exemplos distintos, que acompanhei na vida. Vou contar do que vi, com meus parentes.

Meu avô.
Estava diabético em um estado bem grave. Caira durante o trabalho, e a ferida não mais cicatrizava. Não queria se tratar. Fingia para minha avó ficar feliz, que estava fazendo a dieta recomendada. Mas tinha caixas de bombom pela casa e comia com prazer.  Eu lhe dizia: vovô assim você vai morrer. E ele: eu sei. Já fiz tudo que eu queria na vida. Agora quero morrer em paz, sem ninguém me dizer o que devo fazer.   
 Quando começou a ficar meio inconsciente, com os picos de açúcar no sangue, levaram-no para o hospital. Lá , ficou muito contrariado. Chegou a ir para uma UTI, e ali acordou em pânico e surpreso. Jurou que não voltaria mais para uma unidade dessas. E dizia: "no dia 31 de dezembro  volto para casa". Eu estava com ele nesse dia , quando a enfermeira bestamente chamou a UTI pelo aparelho de telefone ao seu lado, como se meu avô  fosse incapaz de escutar e compreender. Ela encurtou a conversa.  Ele teve um enfarte fulminante ali mesmo na madrugada do dia 31 de dezembro, como  dizia. Mas não "em paz" como queria. Sofreu uma ameaça: UTI.

Meu sogro.
Tinha um câncer que ele sabia ser fatal. Já tinha passado pela mesma saga vinte anos antes, e dessa vez percebeu que seria diferente. Foi mesmo.  Durante o tempo em que ficou internado em um hospital caríssimo, que seu seguro de saúde não cobria, estava inconformado. Ficou melhor quando o levaram para um conhecido hospital  que tem seu próprio seguro saúde, do qual ele foi um dos  primeiros associados.   
No dia que sentiu  seu tempo terminando,  ficou assustado. Difícil estar  totalmente consciente como ele estava, em uma hora dessas.  Não conseguia mais falar, e enquanto os familiares estavam ao seu lado,  fazia um gesto para a médica que o observava,  de que queria uma injeção. Estávamos eu e ela na porta do quarto. Eu lhe dizia:  veja, ele está pedindo uma injeção, um calmante, está com medo, dá a injeção nele, por favor. Ela respondia: “se eu der a injeção ele vai morrer, está muito fraco”. Eu retrucava- ele  está morrendo, seu ultimo desejo é tomar uma injeção e morrer tranquilo. Dá a injeção. Enfim,  morreu minutos depois,  sem a injeção.  E a médica não ficou com a “culpa” no prontuário, de ter permitido um remedinho que humanizasse a partida do meu sogro.

Minha avó.
 Teve uma morte bem mais  suave. Minha tia  e eu, já tínhamos vivido a experiência do vovô, marido dessa avó. Nós duas revezávamos dormidas no hospital naquela época e não queríamos que a vovó tivesse o mesmo tratamento, estranho e frio. Sabíamos com certeza o que ela tinha: metástase em quase todos os órgãos vitais. Escondeu de nós enquanto pode,  os imensos sinais.  Quando tomamos conhecimento, já era inútil qualquer tentativa de tratamento . O oncologista a visitava todos os dias. Fomos vendo-a pouco a pouco desligar sua consciência desse mundo. Ainda bem, ela tinha muito medo desse assunto todo.  Assim, ficou na casa da minha tia   até o último dia, quando , por cautela,  chamou uma ambulância para vovó passar seu finalzinho em um  hospital, e não sofrer qualquer dor.  Passei a noite com ela. No dia seguinte  bem cedo minha tia chegou. Vovó só estava esperando-a. Se foi.  Não precisou deixar  “diretrizes”. Nosso respeito por ela, fez com que as coisas andassem como seria possível suportar, aquilo que para ela era indizível.

Minha sogra belga.
A mãe do meu segundo marido morava em NY  e sabia que ia morrer. Já havia resistido a um gravíssimo quadro, anos antes.  E dessa vez tinha escondido a doença, talvez de si,  por um tempo. Agora estava ali  um câncer, já em estado muito avançado. Não podia ficar em casa, pois precisava já dos recursos de um hospital. Mas também não queria um ambiente impessoal. Minha cunhada conseguiu um dessas pequenas  casas de saúde que mais parecem uma casa de repouso. Vi  todo o carinho , com que  ela  arrumou aquele quarto, levando porta-retratos e outros pertences de minha sogra, para criar ali um ambiente aconchegante. Ao mesmo tempo, a tal clinica tinha uma rotina: todos os dias os pacientes deveriam passar por uma fisioterapia. Vi quando os filhos e a neta Americana, sempre presente junto aquela querida avó, tentaram convencê-la de participar do programa. Me lembro bem de sua reação: “ estou  morrendo, vocês não entenderam?  Não vou fazer fisioterapia nenhuma, quero ficar quieta aqui”. Claro que foi antendida pela família.

Minha sogra brasileira.
A  mãe do meu primeiro marido: percebi pelas palavras de minha ex-cunhada, que aquele era o momento. Viajei para o Rio de Janeiro e passei com minha  sogra  e amiga, o  que seria o seu último dia.. Estava claro, pelo menos para mim e provavelmente, para os médicos que a atendiam. Ainda assim, além do soro, tentavam alimentá-la com sucos e sopas. Para que? Ela dizia: "minha boca está seca, não quero mais comer, não agüento". Assegurei a ela que ninguém lhe daria mais nada forçado. Ela me olhou bem nos olhos e disse corajosa: "estou cansada.". Entendi. Segurei  sua mão e ali fiquei um tempo. Naquela madrugada ela se foi, no mesmo hospital que anos antes meu sogro havia pedido uma injeção e lhe foi negada.  Já minha sogra, foi atendida quando decidiu deixar de se alimentar. Está certo, a glicose e os sais estavam correndo.  Mas já foi um avanço em termos de humanização do fim.

Então ao ler sobre essas  tais" diretrizes" entendo perfeitamente o que seja respeitar vontades em momentos  tão críticos.  Como disse mesmo a reportagem esclarecedora da questão que já está sendo polemica: "não  se trata, por exemplo,  de um jovem rapaz que tenha sofrido um acidente e  todas as tentativas serão feitas". Nem de pessoas que possam ter enfermidades gravíssmas, mas com toda a possibilidade de cura. O assunto diz respeito às pessoas com doenças graves, em estado avançado, cansadas de padecer e sem possibilidade de recuperação. Um final de  vida digno e uma morte suave, é a esperança.  Menos hipocrisia e mais humanidade diante do  sofrimento. Aquilo que a OMS convencionou como sendo "Saúde", ao meu ver,  passa também por aí.

10 comentários:

  1. É uma ideia bem nova rsss, mas acho que quem tem que decidir é Deus né? Temos que tentar não sentir necessidade de controlar tudo.

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    1. Sabe como Deus decide? Dando a nos, cada vez mais, a possibilidade de decidir alguma coisa com entusiasmo. Ou seja, com Deus dentro de nos. Isso nao é controle, nao é eutanasia. É simplesmente aliviar o sofrimento. E cada um faz se quiser, se precisar, se sentir vontade. Grata pelo comentario. Bjos

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  2. eu acho que cada um deve decidir o que deseja, e essa vontade deve ser respeitada. é um tema difícil, ninguém decide sem muito sofrimento, então os médicos e hospitais piorarem essa decisão é triste. beijos, pedrita

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    1. Pedrita, escrevi um comentario e se perdeu no meu proprio blog. Onde nos estamos, hehehehe. Concordo com voce que deve ser dado o direito de cada um decidir, e provavelmente é uma decisao dolorosa, pensada , sofrida. Viver nao é facil nao. Mas é possivel prevenir para nao ficar nas maos dos medicos. Veja o caso do meu sogro. Do meu avô... Se nao tivesse morrido, tinham amputado a perna dele, mesmo sabendo que nao cicatrizaria. Era o "dever", o "certo"....
      Enfim, eta mundo!!! Bjos e grata pelo comentario.

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  3. Nada mais justo que o paciente decidir sobre isso, desde que tenha ainda consciência para tal decisão. Big Beijos

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  4. É isso mesmo querida. E é justo quando ainda tem consciencia, e sabe que a coisa pode piorar, que é melhor fazer um tesztamento desses. Eu faria. E para falar claro, ja fiz. Em um momento especifico de minha vida. E foi bom, me deu calma.
    Bjao minha flor. Boa semana!!!

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  5. Penso que as pessoas tem o direito de escolher. Bjks e boa semana!

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  6. Direito de escolher o que quer que seja para si, deveria ser a "norma da casa" nao é? Pra tudo.Prefiro sorvete de chocolate, geleia de morando diet, cocada bem doce, e ai vamos nos com nossas incoerencias, mas sempre escolhendo o que é melhor para cada um de nos. Direito... Bjos amiga. Boa semana! ( Conseguiu colocar o icone do FB no seu blog?)

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  7. Adorei seu Blog pois sofro de uma doença bastante grave e achei muito importante essa matéria.(ESPONDILITE ANQUILOSANTE)é o nome da doença.
    Fique com Deus e um belo final de semana!!!

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    1. Ola, somente hoje, provavelmente muitos meses depois do seu comentario ( aqui temos a hora mas não o dia ou mês do comentario) . Espero que tudo esteja bem com você. O melhor possível. Grata por partilhar com a gente. Aliás essa é uma das funçoes de um blog^: trocar ideias, partilhar, comunicar. Força para você. Hoje e sempre.
      Bjos,
      Cam

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