04 maio 2016

"O Filho de Saul". E "Desajustados". O que redime tanta humilhação?

     Alguém precisa ser inferior para você ser superior, bacana, estável? É preciso acabar com muitas vidas, para que a sua  sobressáia? E por quase não haver respostas saudáveis a perguntas assim, simples, a esmo, é que existe tanta humilhação nesse mundo.
    
Acabo de assistir dois filmes muito bons: "O Filho de Saul" e "Desajustados".  
Em Auschwitz-Birkenau, um prisioneiro judeu, Saul,  é obrigado a trabalhar  para seus algozes, participando do teatro mórbido que antecedia as câmeras de gás: homens chegavam muitos, também prisioneiros. Eram levados a um lugar para tirarem suas roupas, o carrasco da hora dizia: "vocês aqui vão trabalhar, precisamos de muitos marcineiros, vamos se apressem, depois do banho tem a sopa e já está esfriando". E assim eram mortas centenas de pessoas de uma só vez, decepcionadas ainda, com a última e  falsa esperança de algum conforto moral, minutos antes. De que não seria tão ruim assim aquele lugar. Que haveria vida e trabalho. 
                                      Imagem de divulgação de "Filho de Saul"
   
  Há uns três anos atras meu filho esteve lá com seu pai, e, além de ver fotos de seus familiares, descobriu que as pessoas não morriam rapidamente nessas câmeras. Que não era gás, como o de cozinha, mas inseticida. Então as vezes permaneciam  vivos por dias, desesperados, arranhando as paredes,. E essas marcas ainda estão ali..
   
  É nesse cenário de sordidez radical, que Saul encontra um menino que sobrevive, e ainda respira. E de tanto horror , assume que aquele garoto é seu filho e que merece um enterro digno. É por esse direito ao enterro do filho que ele vai lutar todo o filme. 
   
  Se pensarmos bem, o filho de Saul também é nosso filho. Somos nós que, ao dizermos sim  as grandes e pequenas atrocidades dessa vida, estamos colaborando, deixando morrer a nossa cria, humana.  Saul busca a redenção de crimes, que ele sabe muito bem, ajudava a cometer, seja como for. Em nome de sobreviver. 
   
 Já "Desajustados", uma produção da Islandia com a Dinamarca- maravilhoso pensar que um país tão longe tão frio, tão fora da nossa geografia, tenha tanta delicadeza a nos transmitir: Fusi, o protagonista, tem 43 anos e vive com sua mãe, uma vidinha pra lá de simbiótica e acomodada. Mas o momento que o encontramos- o filme-, ele começa a descobrir pessoas, e o mundo se abre, mesmo que esse parto possa ser doloroso, ele vai de cabeça. Com todo o amor , a dedicação, o carinho de alguém que de bebê, virou gente grande da noite para o dia. Fusi é o oposto do enunciado desse post: não precisa humilhar ninguém para começar a fazer parte dessa existência de forma mais integrada. Me encantei com a sua singeleza. 
                                      Imagem de divulgação de "Desajustados"
  Todos nos somos um pouco Saul,  tentando sobreviver em meio ao caos, a desonra, a humilhação que essa vida besta nos cria. Todos nós somos também essa beleza de ser humano- Fusi- aquele que olha tudo e aceita o que vê com olhos de uma criança. Sem julgamento. 

  Um pouco de um, um pouco de outro.Mas qual é a nossa identidade? Qual é a nossa verdade? É preciso massacrar o outro, humilhar, humilhar, humilhar para se sentir alguém? 

  Pensemos nisso e sejamos um tanto mais economicos, não nos trocados, mas nas mesquinharias da alma. Nós merecemos um campo aberto para viver, E não um campo de concentração, uma prisão feita das nossas  próprias  maldades. Sejamos inocentes como Fusi. Assistam os dois filmes, bons, cada um do seu jeito.

  Ai vejo ali no blog da Georgia, " não vou deixar ninguém falar mal dos outros perto de mim". Adorei. É um caminho.

3 comentários:

  1. Cam, gostei demais das duas sínteses dos filmes. Vou ver se eles estao passando por aqui ou se já passaram. Você expressou bem essa relacao sentimento, envolvimento, atrocidade, falta de humanidade, falta de honra, coisa antiga que está cada vez mais rara. Grande beijo amiga.

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    1. Obrigada querida. Que bom que você gostou e te tocou. Bjosss amiga.

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  2. Começar o dia com a frase da Georgia já um grande ganho no dia. Se tivermos essa consciência todos os dias, já faríamos uma grande diferença principalmente em nossa vida. Mas também não vale nós falarmos mal de alguém. Todo o cuidado é pouco. Termos a consciência de que pessoas são o que são e não temos a capacidade de modificá-las é outro ganho do dia. Não assisti os filmes, mas fiquei curiosa.
    Camille, a frieza com que a humanidade está se transformando, principalmente através da internet é assustadora! Vestem-se com seus avatares e julgam, condenam e massacram quem nem ao menos se conhece. Me afastei um pouco disso tudo. Muito puxado ler isso ou aquilo e junta-se a humilhações, sarcasmo (odeio sarcasmo) e dedos nas fuças, não, isso eu dispenso.
    Graças a Deus podemos fazer escolhas e espalhar o que a vida tem de melhor. Vida perfeita? Claro que não, mas não reclamar e nem criticar a torna mais leve e interessante. Coisas miúdas, delicadezas, simplicidade, coisas esquecidas ultimamente.
    Beijos, querida amiga talentosa, muito sucesso pra vc, sempre e sempre!

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