10 abril 2013

Um casaco vermelho e um colar de turquesas, podem conter um texto, um contexto e uma história inteira.

  Hoje a noitinha recebi um pacote de coisas e um bilhetinho: "estou conseguindo arrumar os meus armários, devagarzinho. Achei um casaco que só usei uma vez quase igual a outro que já tenho. Descobri umas joinhas também. Se não gostar pode me devolver. Beijos" Veio pela mão  de minha filha que foi jantar com minha mãe após a escola. Adorei. Obrigada.  Um pacote de coisas que a mãe descartou do armário: um casaco vermelho de lã- ah após Amelie Poulin e Paris- Manhattan, passei a achar vermelho uma cor usável. Mesmo. Enfeita a beleza da cidadã que se atrever a tão berrante exuberância.

Ganhei também um colar de turquesas tão lindo que por ser de mão beijada achei que era de resina, mas posteriormente a ex-dona me garantiu que são pedras, mas estão envernizadas. U-hu. E mais um pingente e um anel ultra-modernos, feitos por um artista plástico carioca. Boa a coisa. Mas tudo isso me comove mesmo, por que , essa semana, minha mãe passará por uma cirurgia.  E outro dia me confessou: "arrumei minha gaveta de calcinhas. Já pensou se eu morro e encontram calcinhas velhas, calcinhas feias... agora está tudo bonito". Não morre. Com tanta garra de viver,  uma força leonina, que empodera, foi só uma questão de faxina mesmo. E quem sabe, uma boa reflexão.
                                       Achei a foto bonita, não é da minha familia, a fonte está descrita.
                                                         Buscas minhas no Google, pego emprestada com carinho.
Ainda assim, não deixa de mexer com meu coração canceriano. Me faz lembrar de minha avó, que ao invés de uma cirurgia funcional e simples como a da minha mãe, deu de cara  com o real, ao extirpar um câncer de seio já em estado muitíssimo avançado, que ela vinha escondendo de si e dos médicos já fazia três anos. E ali, o  pé na terra da virginiana vovó,  dançou. Era muita pirueta para desviar do assunto do qual ela nada queria saber. Fazia caldos de carne, e dizia que estava  curando-se da tal gripe que não passava, após a cirurgia. Era a metástase no pulmão. E tudo isso é a vida. Dura e linda vida e os processos, a história de cada pessoa.

Como vida é ver minha filha crescendo. Meu filho  adulto,  ético, apreciando com generosidade seu desempenho profissional e pessoal. Tudo certo. Parece bom? Melhor que a sua? Engano. É a mais pura barbárie como em todo aglomerado de gente com parentesco próximo. Cheio de ciúmes, segredos mal-ditos e mal guardados, fofocas, intrigas da oposição. Brigas quase sangrentas, nenhum vencedor, como sempre.

Num apanhado geral de tias queridas, primos e primas, sobrinhos, priminhas como sobrinhas e  fazendo um grande omelete, onde cabe de um tudo, parece um esboço de família (aquela, a idealizada, a estática numa foto em conjunto) Traduz uma tradição de gente com traços de personalidade que vão se repetindo através das gerações. E assim nos distinguimos como um clã, bem disfuncional como a maioria,  nada de modelo margarina de TV. Mas com enorme talento, e sintomas semelhantes: mulheres fortes, sem medo de pegarem no batente. Pioneiras no que fazem, inventivas e capazes. Corajosas ao extremo no sentido de vez por outra, trocarem de profissão e começarem do zero, para brilhar em seguida no nivel "Q5", como me explicou meu filhão, sobre a selvagem vida corporativa. E mais uns high trends de conversa. Que trem é esse ? Perguntaria aqui, minha amiga Lurdinha... Ah um trem doido pra variar,  na correria diária, que as vezes da tempo e outras só de raspão:  a gente consegue se olhar e até, na maior das boas vontades, tenta se agregar. É isso. Depois de um mingau de aveia as duas da manhã, acho que já posso dormir. Já li um bocado de coisas. Fiz meu dever de casa. Boa noite.

10 comentários:

  1. Família, Camille, praticamente todas iguais e cada uma bem diferente da outra. Mas família.

    Pequenas lembranças, pequenos objetos que rendem um belo texto.

    Querida, não sei onde enfiei seu email, aquele que não tem nada a ver com seu nome....
    Me manda um email falando só um oi pra eu te responder e contar umas coisas... tô precisando contar pra alguém....
    clarice.lucia@gmail.com

    Beijos

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    1. Entao amiga, so muda o endereço. Não lembra meu email? De fato, nao da para escrever aqui, esse nao.
      Vou te enviar um email.
      Beijos querida, quero saber das novidades!!!

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  2. Ai, o coração das cancerianas...

    Vovó morreu em dezembro passado com metástase no pulmão, engraçado como não parece tão devastador falar da causa da morte dela pela primeira vez. Pensei que seria. Acho que seu texto me fez ver com naturalidade. Vovó também enrolou um pouco enquanto pôde, mas era uma mulher de vida muito simples, origem humilde, acho que adiou mais por desânimo pelo que o sistema de saúde poderia fazer por ela... E porque ficou triste depois de perder um dos netos querido, meu irmão, e o marido no ano seguinte. Hum, falar disso agora doeu...

    Quanto à sua mãe, acho que é normal a pessoa ficar assutada com qualquer intervenção. Dá uma insegurança por mais que aquilo seja insignificante comparado a rotina dos procedimentos médicos ao qual tantos de nós nos submetemos às vezes. Fiz um biópsia há um mês e lembro de ficar triste e insegura no dia seguinte, embora não tenha arrumado minha gavetas. Mas confesso que pensei nos meus filhos sendo criados sem mim. O motivo do exame foi uma bobagem... Passou.

    Adorei a ideia do clã, do caráter disfuncional e da comparação com a maioria. Identifiquei-me bastante.

    Bjs e vou tentar escrever menos nos comentários... É que ando conversando pouco com amigos do Brasil, aí quando tenho uma brecha, exagero. rs!

    Michelle

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    1. Querida Michelle,
      É super bom receber essee comentarios conversa, é para isso mesmo que a gente escreve. Não sabia da sua avó, triste ne? Ate hoje penso muito na minha. Ja tem 14 anos que ela se foi . Mae da minha mae.
      Claro que toda cirurgia assusta. Ja passei por isso tb. E sei que minha mae anda assustada. Mas para que falar mais? Ela tem FB e eventualmente le meu blog... Mas o fato é que ela é forte e apenas tem uma inflamaçao grave num nervo, por movimento repetitivo... Ela é uma pessoa que vive todos os segundos da vida, produzindo e sendo. Bacana. E diante de uma cirurgia, é sempre insegurança. É do humano isso, ne? Quanto a totalidade do texto, éisso aí. Sem fantasias, mas ainda com alegrias. Beijos querida, fique bem. E continue escrevendo o quanto quiser. Voce tem meu skype, telefone e etc. quando quiser entre em contato!!! Voce é sempre muito bem vinda!!!

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  3. ~~Adorei seu texto, como é bom receber recordações...é como se voltase-mos a vivelas!
    A minha alegria agora é ver meus netos formados, são 2 gémeos mas cada um tirando seu curso, 20 anos a idade deles, este ano é a final são moçinhos muito aplicados é uma alegria...E á também a mais velha minha neta que faz agora em Maio 26 anos a 30...essa já é formada e trabalhando... Guia Turistica, no verão tem sempre muito trabalho, agora que é Inverno baixou bastante, mas avida continua, é-se jovem !!!
    Desculpe meu desabafo é bom ter com quem partilhar nossas alegrias e tristezas...Vivo só meus 3 filhos teem sua vida e só um é que me deu netos, minha alegria, meu marido partiu de onde não se volta, 10 anos se passaram...
    Bjs de uma amiga deste lado do oceano, um retangulo há beira mar plantado ( Portugal)

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    1. Ola Célia,
      Muito grata por seu comentário tão sincero e cheio de sentimento. Deve ser delicioso ter netos. Ainda não vivi essa sensação. Mas parabenizo você, com netos já formados, e tão moderna escrevendo em blog, por que a vida continua. É isso mesmo, a vida continua, e vamos nos renovando. Re-vivendo coisas e vivendo outras, novinhas em folha. Por que a vida continua e segue seu rumo trazendo surpresas, alem de recordações. Apareça aqui mais vezes. Bem vinda você!!! E um grande beijo para toda a sua terra linda, nosso querido país irmão: Portugal.

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  4. é sempre bom ser resgatada em lembranças. beijos, pedrita

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  5. Camille, ainda quero presenciar meu filho ser pai antes de partir dessa vida. Quero poder usufruir ser avó um pouquinho e sei que isso está bem longe de acontecer, mas me comporto como a sua mãe antes de ir se submeter a uma cirurgia. Isso desde quando a minha mãe partiu. Sabe que desde lá tenho me livrado dos excessos e praticado o desapego. Não quero que ninguém sofra tendo que se desfazer das minhas coisas. Daquelas lembranças que são só nossas e que são guardadas como segredos já me desfiz. Não tem porque guardar algo que somente nós nos lembramos.
    Boa cirurgia para a sua mãe! Ah, um casaco vermelho cai muito bem em vários tipos de produção, uma peça curinga!
    Bom fim de semana!

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    1. É Luma, ver os filhos terem filhos, também quero ver. O bem longe passa rápido. Um dia seremos avós sim. Tomara que sim. Praticar o desapego é importante. Da vida a gente só leva a vida que a gente leva, como diz o povo. Concordo. Estou querendo levar uma vida mais turquesa, no sentido do mar.
      Esta se aproximando o Book Crossing ne? Vamos que vamos, ja tirei ate foto dos livros. Bjos e boa semana!

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