15 fevereiro 2014

Ele me consola na madrugada. E a escuridão da noite se torna um novo dia.

Acordo de madrugada com uma sensação tão ruim. Não sei se foi um pesadelo, ou o peso mesmo que a vida tem. E que mesmo dormindo, a cabeça,  o inconsciente da gente continua trabalhando sem fim.  Então me lembro de Vinicius de Moraes, e vou procurar sua obra. Não, livros não, que já não os tenho, não sei onde foram parar, a maior parte deles. PROCURO Num site, desses de obras completas.

Ao começar a ler meu coração se acalma. Como uma criança pequena que precisasse desse alento, para saber que a vida é boa e tudo vai dar certo, por que ele está ali. E tudo vai dar certo por que ele está aqui, mesmo.

Volto a mim, com essa poesia cheia, mas cheia mesmo de lirismo. E abundancia de vida vivida. Que figura singular, Vinicius. Tão angustiado que era, tão buscador do sentido das coisas, tão temeroso da morte. Como todo poeta, dos bons, de uma intensidade atroz. E não me venham dizer que não. Que seu trabalho é fácil, popular, não tem o peso, a densidade dos grandes poetas.  Por que tem. Sinto que tem e é incontestável.

Sua capacidade de transformar o sentimento do dia a dia em poesia é que faz dele suficientemente claro, para qualquer pessoa que saiba ler, poder entender. E isso é difícil, e não, fácil. Isso de  ter métrica e rima. E ainda por cima dizer tudo que o homem comum pode querer dizer ao outro, é bom demais. Não gosto de hermetismo na poesia. Nem de excessos de palavras que fazem os poetas de uma época meio rococó.

Gosto de Vinicius como gosto de Fernando Pessoa.  Não que os dois estejam numa linha reta em suas capacidades de serem poetas.  Por que não estão. E se estivessem é que seria estranho. Como comparar e para que? Cada um deles tinha um jeito de perguntar por que? Por que? Por que.  Cada um na sua letra e no seu desassossego.

Aquela boemia que não vivi, gosto de saber que existiu e existe. Aquela ligação de Vinicius à Bahia, aos orixás. Aquela anestesia de whisky. Entendo ou penso que entendo. Ou talvez seja ele que me entende e por isso me traduza alguma coisa que me traz calmaria no meio da noite.

Quando eu era pequena, como toda criança, acreditava sim que a Lua me acompanhava. As vezes sentia uma  certa  angústia ao vê-la  naquele céu ,  fazendo sombras. Ela assim branquinha, azulando A ESCURIDÃO. Aquilo me interessava. Me dava uma dimensão intuitiva, de que ainda iria me entender com a angústia dos poetas.

Não basta escrever uma  frase embaixo da outra para ser poesia. Não é na forma, no papel que a coisa está.  Mas no conteúdo daquilo que traduz. Na capacidade de dizer o que tenhamos dificuldade até em elaborar mentalmente, que dirá dizer. E dizer bonito,  com sentido claro e consentido. Com a intenção talvez, de nos acalmar no meio da noite.
Então fui ler aquelas que foram musicadas. Quantas. Tantos parceiros bacanas. Amigos, provavelmente daquela camaradagem de ficar a noite inteira conversando sobre a vida. Coisa que pelo menos eu, não vejo  ou escuto mais, esse tipo de conversa.
Vou procurar uns poetas para conversar. Essa é uma resolução, que espero que o dia claro não me faça esquecer.


                                                                             imagem do blog lagrimas de luar
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E  agora coloco aqui só músicas, canções feitas  com as poesias de Vinicius. Suas letras. As que separei para me acalmar. Proximas de uma criança que acorda assustada. Essa. 




AQUARELA
Vinicius de Moraes, Toquinho, Guido Morra, Maurizio Fabrizio
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá...

Tonga Editora Musical LTDA



O FILHO QUE EU QUERO TER
Vinicius de Moraes, Toquinho
É comum a gente sonhar, eu sei, quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar um sonho lindo de morrer
Vejo um berço e nele eu me debruçar com o pranto a me correr
E assim chorando acalentar o filho que eu quero ter
Dorme, meu pequenininho, dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho de tanto amor que ele tem


De repente eu vejo se transformar num menino igual à mim
Que vem correndo me beijar quando eu chegar lá de onde eu vim
Um menino sempre a me perguntar um porque que não tem fim
Um filho a quem só queira bem e a quem só diga que sim
Dorme menino levado, dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado de tanta dor que ele tem


Quando a vida enfim me quiser levar pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro bei..jo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer Ter.

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS
Vinicius de Moraes
Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é, meu Deus
Que frio que me dá
O encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus
Só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus
Me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais lararará

Pela luz dos olhos teus
Eu acho, meu amor
E só se pode achar
Que a luz dos olhos meus
Precisa se casar

Tonga Editora Musical LTDA
(ESSA zambi, eu cantava uma parecida no coral, quando tinha a idade da minha filha. e me lembrou um tempo lindo: zumbi gangazumba, zambi ganga zumba. ZUMBI DEIXA DE SOFRER E -EH. ZUMBI GAMGA ZUMBAÊ...)
ZAMBI
Vinicius de Moraes, Edu Lobo
É Zambi no açoite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de sofrer, ei!
Zambi gritou
Sangue a correr
É a mesma cor
É o mesmo adeus
É a mesma dor

É Zambi se armando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi lutando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de viver, ê
Na escravidão
É o mesmo céu
O mesmo chão
O mesmo amor
Mesma paixão

Ganga-zumba, ei, ei, ei, vai fugir
Vai lutar, tui, tui, tui, tui, com Zambi
E Zambi, gritou ei, ei, meu irmão
Mesmo céu, tui, tui, tui, tui
Mesmo chão

Vem filho meu
Meu capitão
Ganga-zumba
Liberdade
Liberdade
Liberdade
Vem meu filho

É Zambi morrendo, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
Ganga Zumba, ei, ei, ei, vem aí
Ganga Zumba, tui, tui, tui, é Zambi

Irmãos Vitale S/A
(ja escrevi tanta coisa aqui nesse blog, que a busca dos outros ali a direita, as vezes me faz encontrar comigo mesma.)




10 comentários:

  1. Camille, escrever bem é algo que vc pode adquirir com estudo, mas o dom da poesia é algo que, para mim, ou você tem o dom, ou esqueça. A poesia esta dentro da pessoa naturalmente. beijos.

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    1. Concordo com voce Raquel, escrever se aprende. Ter talento verdadeiro, não. Penso que a poesia entra e e tb sai da pessoa, como num processo analitico. Aquilo emerge do inconsciente. E fica bem-dito de acordo com o talento e sensibilidade do poeta. Bjosss

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  2. , salve! li um comentário seu. saudade de ler mais, escrever novamente. saudade daquela época boa como você bem disse. tem facebook?
    , abraços meus!

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  3. Ah que alegria, voce apareceu!!! Que epoca excelente, quantos blogueiros diversificados no seu jeito. Voce ainda tem contato com aquele pessoal do Uol? Great Gatsby, Godden City e por ai vai... Nem sei se procurar por esses nomes assim vou achar. O blogger parece estar do outro lado do mapa mundi da blogosfera... Bjoss. Vou passar no teu pra deixar o meu endereço.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Boa-tarde
    Quando li sobre a Lua na sua infância lembrei agora do meu filho, que outro dia me falou que a Lua estava nos seguindo...
    Tenho saudade de estar mais tempo na blogosfera, mas realmente, não tenho tido muito tempo. Meu garoto sempre clama pela minha presença... e eu amo isso!

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    1. Oi Paulo, tinha escrito um comentario aqui. Esse computador esta biruta. Hoje é dia 6 dejunho de 2014... Volte para a blogosfera sim.Era taõ bom quando tinhamos aqui uma verdadeira confraria. Um beijo no te filhote e na esposa tb.
      Volte sempre!

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  6. Também as vezes me acordo na madrugada sem saber como.. Mas não procuro nas palavras do Vinicius a calma. Se bem que as palavras deles sempre tem o dom de acalmar e transborda amor e delicadeza. Adorei seu post
    Beijos
    adriana

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    1. Obrigada Adriana. Ao acordar a noite, é importante manter a serenidade para conseguir dormir outra vez. O Vinivius foi uma boa ideia. Bjos e boas noites de sono.

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  7. QUERIDOS AMIGOS/LEITORES, MAIS TARDE VOLTO AQUI PARA LER/ RESPONDER. BJOS. GRATA PELOS COMENTARIOS .

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