11 fevereiro 2016

Um casal de pais fantasiados e um menino vestido de macaco. O que você entendeu dessa caracterização?

     Quando minha filha tinha uns 4, 5 anos, adorava a princesa Jasmine ( essa mesma com a qual a mulher do casal esta fantasiada) e dizia num auge edipiano, que seu pai era o Alladin. Ah que lindo casal. E eu sou quem, filha? Perguntava. "Ah você é o Abu." O macaquinho. Eu achava a maior graça disso. Ela me excluía nessa passagem maravilhosa, me dando o lugar de Abu. Não humano, e não parte do casal. Mas próximo.

     Ontem vi na Internet a foto de um menino vestido de Abu, o macaco. Com seu casal de pais adotivos: Alladin e Jasmine.

      Ainda existe um tabú no Brasil com relação a adoção. Como se o "sangue" que corre nas veias de uns e outros contasse mesmo para alguma coisa.  Aliás sangue e ser humano tem tudo a ver : sangue ruim, sangue bom, sangue azul, bodas de sangue... Faz metáfora com um bocado de coisas, sempre longe do sangue, sangue mesmo. Aquele que as vezes se pede  doação para salvar uma vida.
 
    Portanto sangue é vida. E nada tem a ver com laços parentais. Daí me parece um desatino o preconceito com o tal do sangue original de fábrica de cada um. O tema que envolve o preconceito contra adoção, para não me aprofundar muito agora, nesse assunto recheado de hipocrisia.

   Ai vem a questão da negritude: quando alguém chama um negro de macaco, é uma grita geral. Muito certo.  Macacos somos todos nós e não especificamente as pessoas negras. Haja visto uma pesquisa nem tão recente do DNA do Brasileiro. Você não pode imaginar o quão neguinha sou eu aqui. Ou você aí que se acha tão branca de neve. E o quão branquelos são essas pessoas que na aparência tem cor negra, mas que no exame de DNA são mais brancas do que eu e você. Nossa raça, nossa cara, é  miscigenação pura. Resultado: humanos em geral.

  E a questão da pobreza? Foram anos de escravidão do negro no Brasil. E ser negro fica associado a essa condição.  Já experimentei algumas vezes ser julgada pela minha aparência. Vou contar uma delas:  estava voltando de Visconde de Mauá totalmente à vontade. Meu ex-marido tinha uma reunião sobre franquia de uma cadeia de lojas X- roupas de crianças.  Era domingo e entramos na loja, ponto de encontro com o dono daquilo tudo. As funcionárias me olharam, me reviraram e me erraram feio: " o que você quer"? ( Nada de "posso ser útil?"fique à vontade" Não. Era um encontrão do tipo-essa loja não é para você....  Claro que fiz um belo de um discurso. Naquela época ainda perdia tempo com essas coisas.  E não fizemos negócio nenhum.  Que proprietário é esse que não treina seus funcionários a serem corteses com uma pessoa "qualquer", feito eu ou você? Quer dizer, com toda e qualquer pessoa?

Não precisei ser negra. Mas pobre. Ali, com minhas roupas de bagunça em Mauá, eu estava" com cara de pobre" e pelo visto, tinha tudo a ver ser maltratada no shopping center dos ricos .Não é a cor da pele, mas a pobreza que está na jogada capitalista. Seu poder de compra. E as aparências desse poder.

Ah as aparências, pois é.  E as transparências?  O menino estava fofíssimo vestido de Abu. Não vou negar. Muito lindinho. Mas... e quando crescer e olhar essas fotos, o que vai pensar ou sentir? Em que lugar esses pais estão colocando essa criança? Que desejo é esse, de  um filho para causar polêmica?

A mim causou estranheza sim. Não gostei. E penso que a criança tem o direito de não ser usada para causar, seja o que for e como for.

Vi a nota, dos pais dizendo que  queriam " abrir um diálogo" ou algo assim. Lamento, mas existem muitas maneiras de colocar um assunto em questão, sem que se torne abusivo para a sua criança.

Por outro lado dá um certo dó. Pessoas as vezes não sabem mesmo o que estão fazendo.  O menino era uma fofurice naquela fantasia de chapeuzinho. Mas ele tem direito a ser, sem a fantasia, o fantasma, ou o que, de seus pais,  fruto da cultura que nos redime e nos condena.

Portanto pais, se aprumem. Principalmente se, como disseram pretendem adotar uma outra criança para dar um irmãozinho ou irmãzinha para "Abu". Pois é . É como vocês colocaram  as coisas. É dessa forma que daqui a 10 anos esse pimpolho pode se ver, se reconhecer e interpretar um destino que aparentemente seus pais estão a lhe conduzir.

As aparências enganam sim. Não conheço esse casal nem suas intenções. Mesmo assim, as aparências também  transparecem.  E viva o fim do carnaval. Ja era tempo.

                                          Imagem de ilustração da Disney encontrada no Google

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