02 fevereiro 2014

O QUE VOVÓ DIRIA?

O silêncio é de ouro,  era coisa que ela adotava como norma, sem se  pronunciar sobre o assunto. Quando havia uma briga, uma fofoca de jornal, ou da vizinha, ou alguém da família em desavença, ninguém via  minha avó dar sua opinião, um sermão, “bater boca”, julgar ninguém.
Em compensação, eu era a neta mais velha,  quando precisava ela dava aquela de avó , certeira como alguém de inegável experiência de vida. E o tom era engraçado as vezes, o tom do rosto:  ela ficava vermelha, e dizia o que precisava ser dito. Com aquela suavidade rosa e olhos azuis brilhantes. Que fera, mansa, mas fera.

Como no dia em que apareci lá com duas toalhinhas de rosto, para que ela fizesse crochê na barra. Eu queria dar de presente para minha talvez  futura sogra que estava vindo de viagem.  “Por mim você não falava mais com ele e nem com ela.” Vovó não confiava nadinha no namorado que eu teimava em perdoar todas as mentirinhas, os enganos,  aqueles desacertos  clássicos que a gente mais madura já sabe que não vai dar um “bom casamento”. Mas  tai, por insistência minha ela fez o crochezinho. E o futuro mostrou que estava pra lá de certa.

Ir para aquela casa era tão bom.  Mar batendo nas pedras da praia. Vento praiano soprando tranqüilidade, gavetas cheirando a sache. E que sache era aquele tão bom? Talvez de fabricação caseira. Um cheirinho de alecrim, ou alguma outra ervinha muito especial.  Camisolas de tecido fino , deslizante, decotadas e até os pés. Sempre foi assim.  Vestidos bem cortados- por ela- para festas, viagens, ocasiões especiais: “mulher  tem que ser um cavalo de raça”. Hein vó? “Você precisa ser mais vaidosa, se arrumar mais, um sapato alto, um batom. Veja eu mesma, sempre com as unhas bem pintadas.  Se "pinta", só um pouco.”  E eu com meu jeito de sempre, cara lavada,  respondia: maquiagem de mulher é pele bonita ....( bom , até que saí a avô, no aspecto das frases  de efeito, proferidas quase como lei) 

Naquela época dava para ser assim. Hoje levo a maior fé num kit completo de maquiagem. Coisas que aprendi com minha filha, que já nasceu, no jeitão da bisavó. Vaidosa, cheia de alegria ao colocar um chapéu na cabeça desde pequenininha. Ai que coisa mais diferente d’eu.

E tem la que ser igual? Tem que ter amor. Tem que ter carinho, abraço.” Mãe me abraça feito a vovó fazia?” E la ia eu abraçar  e tremer o corpo todo no abraço como se fosse um abraço a motor.  Eu adorava isso vindo da vovó, minha filha idem, vindo de mim. Ela nem conheceu vovó ao vivo. Só as minhas eternas lembranças.  Daquelas que a gente conta aqui e ali, abre aquele saquinho de memórias, e diz assim, só por que é gostoso.
  
Vovó adoraria minhas escolhas de roupa no verão:  para ela tinha que ser “ um corte de tecido com estampado bem bonito”. Eu também. Anna também.  Mas a gente compra feito.  Minha mãe sempre foi o estilo São Paulo: preto, cinza, minimalista.  Mas nós, vovó, Anna e eu, ficamos com as cores, as flores, e alguns  vestidos. Sempre amei essa peça de roupa, de preferência, estampada. Influencia?  Claro. Que saudades.

E hoje,  chateada com uma situação familiar e extra-familiar, recorrente.  Feiúras,  toxidades, nada que ver com o bom  caráter daqueles que queremos perto de nós, vovó talvez dissesse “acabou o bonito da coisa. Mas acabou há muito tempo. Õ- filóca- ( como ela gostava de me chamar) o que  você ainda espera disso aí?”

Ah, ela diria.  E eu quietinha trataria de arrumar um jeito de mudar meu modo ainda resistente,  de ver e de sentir.  Sem dizer mais nada.  Acabou o bonito da coisa faz tempo. E o silêncio é de ouro, sim.

7 comentários:

  1. O silêncio pode ser o melhor remédio, conselho ou resposta.
    Feiúras e belezuras vamos ter sempre. Vovó que o diga.
    Ah Cam, eu ainda não conclui o doutorado. Eu escrevi no blog que me dediquei a leitura do doutorado, mas ainda estou na metade do caminho.
    Bjks e boa semana!

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    1. Tambem acho Roseane, e muitissimas vezes peco por falar demais.
      Quanto ao doutorado, só de fazer já é sensacional. Acho o maximo o Doutorado, quando a pessoa tem o direito a falar e todo mundo escutar, com ainda mais respeito, a Doutora. Metade do caminho? Só falta metade.. Quanto caminho andado, que show! Bjos e grata pelo comentario. E muitos parabéns tb.

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  2. Camille,
    que linda esse seu post. Cheios de ensinamentos de quem já viveu muitas coisas como é o caso da sua avó. Bom lembrar de pessoas que nos dão carinho e que enxergam longe!!! O silêncio é mesmo de ouro
    Beijos
    Adriana

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  3. Oi Adriana, minha avó era muito especial mesmo. E as vezes tenho uma enorme saudade. Para mim ela era uma grande felicidade, e ir na casa dela, comer uma sopinha, um pão de minuto feito por ela eram as minhas "pequenas felicidades" como voce fala. Bjos e obrigada pelo comentario,
    Cam

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  4. É engraçado pois me identifiquei com o post. Eu tenho os mesmos gostos da avó materna, talvez pq a gente seja do mesmo signo peixes. Morro de saudades dela.
    Big Beijos
    Lulu
    luluonthesky.blogspot.com.br

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  5. belo texto, tb tenho um carinho saudoso das minha avós. beijos, pedrita

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  6. Obrigada Pedrita. E viva as nossa avós, nas nossas lembranças!!! Bjoss

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