26 outubro 2014

O Passado. Sobre o que é reversível ou irreversível nas relações.

     Acabo de assistir "O Passado", de Asghar Farhadi, o mesmo realizador de "A Separação".  Uma questão que retorna: são diversas as separações em seu novo filme. E a aparente possibilidade de revertê-las. Não é preciso conhecer a vida desse diretor, para imaginar que esse é um tema que o faz questionar e questionar-se. E por isso retoma.
 
     Uma mulher  francesa, com duas filhas de um primeiro casamento, casa-se novamente com um homem iraniano. Aliás, o tanto que se frisa o fato dele ser iraniano é alguma coisa que para mim ficou meio no ar. Se fosse francês, dava na mesma? Talvez.
 
   O filme começa com esse homem chegando do Irã. Percebemos então que aquele casamento não deu certo, e ele está voltando a França para se divorciar. Também se vê que ele ainda gosta da mulher e tem uma relação bem paternal com suas filhas.
   
    A mulher pediu o divórcio por que quer se casar com um novo amor, igualmente cheio de passado.Esse homem ainda é casado e com uma mulher que está em coma. Aparentemente tentou suicídio por causa de uma depressão. Nenhum outro motivo a mais além da enfermidade.  Mas logo no começo do filme e todo o tempo é questionado se  poderá ou não voltar do coma,porque apareceram uns arranhões em sua barriga, que ela mesma pode ter feito. E portanto,estar mais consciente do que os médicos conseguem perceber através dos exames.
 
     Essa possibilidade de vida,morte ou coma, é a temática que permeia todo o filme.
 
    O iraniano deixa sua terra natal, e volta  a França depois de quatro anos de separação, para um divórcio,  que poderia ter sido resolvido por procuração. Mas ele vai, provavelmente em busca de alguma vida que tenha restado ali. A distância não é um impedimento. Dá para ir do Irã à França, em busca de um amor dado como perdido. E de fato, durante toda a trama, não sabemos se aquela história vai reatar ou não. Parece próximo disso. Trata a ex-mulher com muito respeito e carinho. Cuida das filhas dela como se fossem suas. Conserta coisas na casa como se ainda morasse ali. E até consegue transmitir segurança ao garotinho,  filho do novo namorado. O menino cuja mãe está em coma.
 
    Mas a mulher, a francesa que agora está com  o pai do quase orfão,  parece que não quer mais o ex. E já está grávida do namorado com quem quer se casar, quando sua mulher provavelmente morrer. A gravidez está no início, e de certa forma é questionada - é reversível ou não? Ela diz:"eu poderia ter tirado". Alguém pergunta: de quanto tempo? Um pouco mais que dois meses, ela responde. Ainda é tempo?...

   Com a gravidez do outro ou sem, o marido iraniano parece disposto a assumir a todos. Mas isso é suficiente? A mulher francesa não parece gostar tanto assim do seu namorado, mas isso importaria na vontade de uma volta com o iraniano? Ela percebe que seu namorado ainda é muito ligado na mulher que está em coma.  E seu namorado, também observa o quanto ela se transtorna com a presença do marido iraniano.Tudo pode se reverter se for o caso.Será?


 
  Dá para matar sem deixar vestígio quem passou por nós? Um bom distanciamento é possível , sim. Lembranças quase amareladas, quem não as tem  e até deixa de te-las, a menos que sejam por algum motivo invocadas?
 
   Mas ali trata-se de sentimentos ainda vivos,  mas sufocados, , que não conseguem chegar a superfície, por que cada um dos personagens, ao seu modo, está disposto a cortar laços com o passado. E paralisam sem perceber. Seguir em frente  é possível. Desde que,  conteúdos possam emergir, para serem depurados, curados, ou extirpados por esclarecimento, dor, ódio, amizade,  pratos limpos.

    Nada disso parece acontecer. As coisas simplesmente vão se passando e por cima. E viram passado sem ter passado. O que não acontece só no filme. Quantas histórias, relações familiares, de casal, ou de outro tipo que simplesmente parecem estar  sem possibilidade de comunicação, ação,ou mudança? Vivas e ao mesmo tempo, mortas. Em coma.
 
    O filme termina de um jeito interessante: o marido da mulher em coma, buscando ali na cena, no quarto do hospital, estimular os sentidos da mulher, para que ela reaja. Ou para que, depois de suas tentativas, e sem reação nenhuma,  ele consiga declara-la para si, como morta e ponto final.
 
   Pensamentos, sentimentos, memórias, soterrados,  são matéria para a psicanálise. Mas podemos dar uma mãozinha a nós mesmos, des- anestesiando, para variar. Sentir um pouco de dor não faz mal a ninguém. Sinal de vida. Já o excesso, pode levar a morte. Cada um que encontre o equilíbrio. Mas que encontre realmente. Para que a vida que passa tão rápido, seja melhor aproveitada .No mínimo, saia mais de casa, ande no parque,  cuide-se. E olhe para si,  procurando também entender o que acontece de fato em seus encontros, suas relações e seus finais felizes ou infelizes. Por que alguma coisa sempre se rompe? Ou precisa ser rompida e ao invés disso, você adia sem misericórdia? Mexeu com você? Então pense nisso.

. E quando amanhecer- por que hoje já é amanhã, 3.52h- lembre-se de votar bem. O resultado das eleições, aliás, costumam ser  irreversíveis, pelo menos, até as próximas. Olhe para o passado e vote em um futuro promissor.

Para tudo o mais, fora a morte, pode haver alguma solução inovadora. Sejamos mais criativos, pois.

6 comentários:

  1. Não conhecia esse filme Cam, parece bem interessante
    big beijos

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    1. Vale a pena assistir Lulu. E não contei a história toda.
      Bjos e boa semana!

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    2. Cam, valeu a dica. Já apaguei seu comentário no blog. Eu to mais bonita que a minha sósia. hahahaha

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    3. Tenho certeza que sim Lulu. Sempre disse que ela é sua sosia,mas jamais pensei que fosse mais bonta que voce. Você é linda. E muito mais proxima tb. Bjos e sucesso!




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  2. Amei a dica, é o tipo de filme que eu gosto dever por tratar de fatos reais de uma sociedade moderna.

    Gracinha a tua entrevista sobre o teu segundo livro. Parabéns! E o post sobre a Lady Godiva, vc ja fez? Nao achei. Sou fanzona dela e ler um post sobre ela na tua mira deve ser algo muito especial. Bjos

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  3. Oi Georgia, muito grata pelo carinho, pelos comentários. Aquele post la, tirei e coloquei umas duas vezes, muito exposto da vida ne? Mas que bom que você gostou. Ainda não escrevi sobre Lady Godiva, ainda não tive tempo. Para você ter uma ideia, hoje, domingo, estou levando a filha para fazer testes de matematica. Bem assim.....Ainda não tive tempo para divulgar o livro tb. Requer muita dedicação. Nem sabia que tinha alguem fãzona da Lady Godiva que não fosse pelos chocolates. Taí uma mulher super culta,e disso não temos duvidas, você. Um grande beijo e boa semana! Cam

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