26 abril 2014

Falta Carinho, Isso Sim.

      Tive uma semana fora do ar. Baixei hospital, sim. Foi só um susto. Mas daqueles que nos faz pensar. Até por que fiquei quatro dias internada. E sem muita atividade, além de pensar. E olha que pensar mesmo, é um privilégio para dias como esses. Onde viramos do avesso e portanto, os pensamentos também reviram junto. O que é maravilhoso, por um lado. Do outro,  tem a morte por perto. Sempre. A cada respiração,   é a vida ganhando espaço, nós é que não nos damos conta, de tanta dádiva, oportunidades incríveis de ser e estar aqui. De tantas vitórias diárias, que poderiam ser melhor comemoradas.
    De tudo que pensei, a coisa mais presente foi: falta carinho. Fácil me direcionar para esse lado- fui hospitalizada por carinho do médico, que após uma consulta muito adiada, em cinco minutos decidiu por mim, o que vinha empurrando há quase cinco anos. Olhar e ver o que acontece por trás de sintomas insistentes. E quem insistia nessa consulta: a minha própria médica, de anos, que conhecendo muito bem a minha história, se questionava em diversas perguntas que eu tinha sem resposta até então. Carinho dela. Entenda-se por carinho, cuidado, respeito, compromisso com a vida. E carinho como entende-se na linguagem popular: simpatia e quase amor.

   Me deram a mão para um carinho e um cuidado que não estava querendo ter comigo mesma. Ou pelo menos, não estava conseguindo. Sem justificativas.
   Ano passado perdi um pai, já perdido há anos. Mesmo assim, doeu. Em seguida perdi meu analista, professor, supervisor e posteriormente, analista da minha filha. Doeu desesperadamente, perdi o chão por alguns dias. Me enchi de culpa, por que vi esse homem definhando. E aceitei as suas desculpas esfarrapadas, deixando-o no lugar do analista, mas tirando-o do lugar de simplesmente humano, necessitado da ajuda que eu não soube dar. A transferência vai pela vida afora? Ora pois, pois. Também perdi uma amiga querida, que não via há anos, mas eu gostava muito. Ela morreu de leucemia. E tinha a minha idade. Além da tristeza de um ser humano lindo que se foi, ficou mais claro, o que já era certo: sou mortal.
  E o que ganhei com tanta perda? Dor, no coração. Uma boa oportunidade de fazer um check up geral, e ver no corpo,  aquilo que eu pensava ser só metáfora. Nada. Deixei pra lá. Em termos.  Voltei a fazer academia, emagreci. Estou bem, por fora. E por dentro, por que meu Santo é forte. Meu Anjo da Guarda não deve ser só uma força de expressão.
   Cansei. Do estado indiferenciado que pede uma profissão de escuta profissional. Um estado quase Zen, que é bom, mas às vezes excede em  minimalismo, vamos dizer assim. Quero ser mortal, mas viva.  Quero sofrer, ter compaixão, sorrir e achar graça no mundo, mesmo sendo o mundo que é.
   Na volta para casa passei pelo viaduto que sou obrigada a passar. Um lugar que me dá medo e dó. Ali ficam mendigos sempre, indigentes, na pior pobreza que há: sem lar, sem comida, sem compaixão, sem carinho. Expostos e absolutamente excluídos. Como não ver? Não me remexer, não me mexer diante disso?:
   Em tempos menos melancólicos, meu ex-analista, querido amigo,  dizia coisas muito prósperas e próprias dele: "temos uma dívida com a humanidade. Com tudo que já inventaram antes de existirmos, e que faz nossa vida melhor." Quem inventou o antibiótico, a anestesia, o pão, a música, a eletricidade. E tudo que faz esse mundo ser mundo para nós. Sim,  qual é a nossa parte? Qual é a minha parte? Que obra imensa tenho para deixar? Já fiz alguma coisa para deixar, sim, alguma coisa. E o que mais? Esse é o meu melhor? Não, falta muito da minha parte. Falta carinho, da minha parte. E quero dar o que tenho por que quero e por que devo.
    Hoje li uma frase do Paulo Coelho, ou pelo menos assinada por ele, que poderia ter sido dita por você ou por mim, mas ele é mais celebridade. Ou quem sabe, tenha mais senior-idade pública para ouvirmos como se fosse novidade, e levarmos a sério: "NA DÚVIDA, FAÇA". E não é de hoje que percebo que pecamos por não fazer. O silêncio pode ser de ouro. Mas a não ação. E a omissão não são. Não quero não.
   Assim, na dúvida, escrevi esse texto aqui. Me julguem como quiserem, sou um ser humano, cheia de ambiguidades, inseguranças e questões, como todo mundo. E escrevi para dizer: falta carinho. Façamos então. Vamos dar o que temos. Falar o que precisamos, pedir desculpas a quem devemos. Aceitar o que é aceitável e as vezes dizemos que não é não. Propor, que tenhamos todos mais compaixão por todos. E que saiamos dessa leitura, que agradeço imensamente, tem gente e quanta gente boa,  que vem ler o que escrevo- prontos para abraçar uma causa, ou alguém que precise de um abraço, ou mereça o que queremos dar. Enfim, que levantemos da cadeira  para tirar mais gente para dançar, como disse o Nilton Bonder, no livro "A Alma Imoral". Na dúvida faça, como disse o outro. E na certeza, mais ainda. Digo na certeza, por que muitas vezes temos certeza absoluta do que precisa ser feito e não fazemos. Como eu, durante cinco anos. Diferente do médico, que decidiu por mim em cinco minutos. Sou-lhe totalmente grata e nem sei como expressar isso. Mas na dúvida do como, faça.  E lá vou eu, fazer o que precisa ser feito por mim.
E fica aqui a idéia que nem é minha, mas que finalmente acatei. E quando esquece-la de novo, hei de ler em um cartaz por aí para me lembrar, por que a vida é assim mesmo, cheia de mensagens e de sinais. Sejamos bons em leitura. Para viver muito mais. E principalmente para viver muito melhor. Com mais carinho.
        Beijos para todos, infinitamente ligados uns aos outros, nós. Estreitos laços.
                          Precisando de mim, sabem onde me encontrar.
                                   Muito carinho da Pauline/ Camille.

ilustração: galeria colorir.com

4 comentários:

  1. Pauline, carinho e atenção é o que vc mais dá pra gente... Escrevendo coisas lindas, interessantes, necessárias, enfim, escrevendo... E tanto que precisamos de carinho e muitas vezes é na internet com os amigos "virtuais" que temos. Eles é que têm tempo pra isso. Basta um abraço, uma figurinha e pronto, o abraço já foi dado. Já sorrimos, já nos aliviamos e a vida continua.
    Além de carinho falta atenção também. As pessoas precisam aprender a ouvir mais. Nada que vem de dentro de um ser humano é coisa à toa. Uma simples lágrima embutida pode causar um dano terrível à vida. Vai acumulando até formar um oceano gigante, profundo...
    Falta também tolerância em aceitar os outros como são. Que poder temos em querer mudar o outro? Nenhum! Então que cada um seja cada um. Isso é fantástico!
    Querida amiga linda e talentosa... se cuide, por favor! Se cuide, se cuide, se cuide! Entendeu?
    Beijos
    Precisando de mim sabe onde me encontrar... 24h por dia a sua disposição!
    Beijos e mais beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada querida. Que bom que você pensa assim. Fico muito grata por tuas palavras. Estou bem sim, meio cansada, confesso. Mas seguindo em frente, na certeza de que o mundo é cheio de gente boa. Eta certeza boa essa. Precisamos mesmo, sair do estado letargico, ou do comportamento animal, para gente ser sinônimo de alguma coisa mais elevada. Por enquanto escrever o Homem com letra maiuscula ainda é erro de gramática. Temos muito que melhorar. Digo, em termos de humanidade. Você Clara, é uma dessas pessoas ´´otimas que baixaram nessa Terra. Bjao querida!!! Tb estou a tua disposição. Você sabe disso.
      Pauline

      Excluir
  2. espero que esteja melhor. carinho é tudo. se cuida. beijos, pedrita

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou otima Pedrita. Me cuidando, Obrigada querida.
      Bjos

      Excluir


COMENTE, DÊ A SUA OPINIÃO. Você é a pessoa mais importante para quem escreve um blog: aquela que lê, que gosta ou não gosta, e DIALOGA.
Bem vindas. Bem vindos. Você pode comentar, escrever seu nome e para facilitar, clicar na opção "anonimo", ou pode se inscrever e comentar. Acho a opção, que se coloca o nome e uma forma de contato, + a opçao anonimo, VALIDA. Grata e aguardo seu comentário.