
Ja vivi muito bem obrigada sem ter uma pessoa para me "servir", como alguns alguéns se referem aos empregados- "serviçais". Parece coisa feudal não é? Mas enfim, com filhos pequenos, que atire a primeira pedra quem não quer ter uma pessoa de confiança para deixar os pimpolhos e ter um pouco de folga, no mímimo, para trabalhar em paz? Quando eu morava no Rio de Janeiro, vivi muito mais a experiência de minha mãe com as empregadas do que eu mesma como patroa. Eu e elas tinhamos uma ótíma relação sempre, claro, eu não era a megera da madame. Mais tarde, com meu filho pequeno comecei a ter pessoas trabalhando para mim e sempre foi uma relação mais ou menos tranquila. As moças sabiam cozinhar direitinho, a gente conversava, tudo se ajeitava. Eu era uma guria, as empregadas em geral eram mais velhas que eu, tinham uma certa maternalidade comigo eu achava, e estava tudo certo.
Quando vim para São Paulo, senti uma enorme diferença.Tinha passado mais um tempo no exterior, onde a gente faz tudo sozinha, ou no máximo tem uma faxineira de vez em quando, numa relação bem mais realista e igualitária do que a maneira que coisa funciona por aqui, com os tais 'serviçais" dos nossos "feudos." Então encarei essa cidade, SP, que não é moleza não. Nem para arrumar um emprego sem conhecer ninguém do mercado local, como era o meu caso. Nem para ter uma empregada doméstica, em uma terra onde onde o trabalho industrial predomina e a relação patrão e empregado está bastante voltada para direitosX deveres e ponto final. E eu ainda naquela carioquice de chamar os filhinhos da empregada para morar na minha casa. Nada disso.
Tive que me adaptar a falta de amizade e a relação puramente capitalista enquanto Anna Luiza era bem pequena.
Agora que ela cresceu, mas não o suficiente para ficar em casa sozinha, até por que não tem irmãozinhos para fazer companhia, eu vivo em um permamente estado de desconforto com esse assunto: ter ou não ter uma empregada. Os salários são cada vez mais altos, ok. Os direitos bem determinados, ok. As folgas estabelecidas na maior rigidez, ok. Tudo muito profissional. Só que aquela revolta constante de você é "rica" e eu sou pobre ainda existe. Aquela coisa feudal de - estou trabalhando na sua casa e sou como um pertence seu- voce tem que me dar comida, roupa lavada, instalações confortaveis, no minimo com televisão, aturar meu mau-humor, minhas reclamações, meu serviço feito de má vontade, meu ódio por fazer parte de uma sociedade tão contraditória, também.
Estou cansada de aguentar isso. E , optando por não ter mais empregada nenhuma na minha casa. Não fui eu quem fez essas contradições e tento minimizá-las, mas claro que não consigo. Por que elas existem de fato, são injustas e cruéis. Mas cansei de ter uma "big sister" que tudo sabe da minha vida. E que faz de mim o alvo principal de suas insatisfações.
Só nesse começo de ano L. já é a segunda que passa por aqui e hoje, corajosamente, espero conseguir dizer A-Deus, depois de suas duas semanas de trabalho, muita dor dente, dor de cabeça, gripe, febre, mãe morrendo, filho que caiu na escola lá no Ceará, todos os motivos para justificar uma imensa vontade da vida ser diferente da que ela tem, por falta de opção: ser empregada doméstica. E olha que foi ela, prima do porteiro, quem bateu a minha porta, vendendo um peixe como peixão saboroso e sem espinhas, para que eu desistisse de minha vida de "solteira de empregadas"e tentasse novamente embarcar numa "relação estável". Não é possivel. Portanto, daqui para frente, comidas congeladas. Estou com uma lista de endereços para começar a encomendar. E no mais, vou me virar direitinho, o melhor que eu puder. Por que qualquer coisa é mais produtiva do que ser tomada como o pivô das desgraças do mundo.
De qualquer maneira, se você encontrar Mary Poppins por aí, me avise. Ela tão bonita, confiante e alegre, leve e solta com aquele guarda-chuva pelas nuvens, será que só em filme? Quem sabe se eu escrever mais uma cartinha....(foto: Julie Andrews no filme Mary Poppins, produção de 1964, pesquisa no Google)







